Com o projeto
Define a Sua Cidade, o Grupo 3 usou QR Codes para espalhar nos pontos turísticos de Salvador uma visão diferente da cidade à oferecida por empresas promotoras do turismo na capital. Queremos primeiro causar estranheza, já que não é normal encontrar esse tipo de código na rua, mas principalmente convidar aqueles que se sentem atraídos pelo signo a pensar em uma outra Salvador além do cartão postal vivo que têm a sua frente.
Para isso, ao fotografar com o celular o QR Code, automaticamente o usuário acessa um arquivo de áudio que contem uma gravação do poema
Define a Sua Cidade, escrito no século XVII pelo primeiro grande poeta da Bahia:
Gregório de Matos. O poema, que começa com os versos "
De dous ff se compõe /
esta cidade a meu ver /
um furtar, outro foder", trata com escárnio uma Salvador cheia de problemas que, a nosso ver hoje e então, esconde suas mazelas debaixo do tapete e mostra ao mundo uma face que não é a sua.
Salvador tinha menos de 100 anos quando, em 1636, Gregório de Matos nasceu. Em 1650, como era comum entre os fidalgos brasileiros, ele foi estudar na Corte, em Portugal, onde se formou em direito. Só retornou ao Brasil em 1683. A partir daí, e durante uma década, gastou suas penas escrevendo poemas que zombavam, criticavam ou até ofendiam a gente da Bahia – pouco importando se o alvo da vez era branco ou negro, rico ou pobre, poderoso ou escravo.
Não que sua obra seja composta exclusivamente de poemas satíricos (Gregório também escreveu muitos poemas religiosos, e mesmo poesia lírica), mas foram as sátiras que fizeram sua glória e, em seguida, sua ruína. Por conta dela, o
Boca do Inferno – alcunha com a qual ficou conhecido – perdeu o importante cargo de tesoureiro da Sé que detinha e foi deportado para Angola, em 1694. Acabou ganhando o direito de retornar ao Brasil, conquanto não voltasse à Bahia, depois de ajudar os portugueses contra uma revolução por terras africanas. Instalou-se então no Recife, onde veio a falecer em 1696.
Acreditamos que Gregório é atual, apesar do tempo. Acreditmos, também, ser necessário este e outros Gregórios para realizar uma transformação urgente na cidade, no país. E sim, é possível realizar isso "desde dentro", pois Gregório era, afinal, baiano.
Não fizemos um site para o projeto, pois queríamos deixar o trabalho realmente anônimo. A idéia é mesmo ver se o projeto vai produzir algum retorno espontâneo, algum tipo de contato conosco na rua, comentários, twitter. Sem necessariamente por um site.