André Lemos is Associate Professor, Faculty of Communication, Federal University of Bahia, Brazil. PhD in Sociology, Sorbonne (1995), Visiting Scholar University of Alberta and McGill University, Canada (2007-2008). Coordinator of Cybercity Research Group (UFBa/CNPq) and Researcher level 1 at CNPq. Member of Prix Ars Electronica, Wi. Journal of Mobile Media and Canadian Journal of Communication Board. This Carnet is online since March 1st, 2001.
Interessantes projetos tensionando a nossa vivência no espaço urbano, questionando o nosso lugar no mundo seja através de paisagens sonoras e narrativas, seja através de viagens deslocadas no tempo e no espaço. Todos os projetos utilizam mídias locativas (basicamente aqui mapas, mp3 players e celulares), para registrar locais e suas paisagens sonoras. O interessante é que as experiências com as novas tecnologias se dão no uso do espaço urbano e requer do usuário uma imersão nesses lugares.
Vou citar nesse post 3 projetos que trazem esta dimensão locativa e de certa forma, um estranhamento. Podemos ver aqui potencialidades para que as tecnologias móveis desempenhem efetivamente "funções pós-massivas". Sugiro que voces não fiquem apenas no meu post e que visitem os sites citados pois há toda uma imersão visual e sonora muito interessante que não reproduzo aqui.
Primeiro gostaria de destacar o "You Are Not Here". Este projeto desloca o usuário do seu lugar criando um estranhamento espaço-temporal. Ao andar por uma cidade, a experiência coloca o usuário navegando por meio de mapas, virtualmente, em outra cidade. "You are not here" produz assim deslocamento e localização ao mesmo tempo (daí a sensação de estranhamento). Por exemplo, o usuário pode visitar virtualmente a Faixa de Gaza, passeando por Tel Aviv, ou Bagdá através das ruas de NY. Isso é possível através de mapas e telefones celulares. Veja o site e o vídeo para melhor compreensão da experiência.
Na mesma "vibe", gostaria de destacar mais dois projetos que ressaltam a paisagem sonora das cidades e as narrativas aí acopladas por qualquer pessoa. Aqui a dimensão locativa se dá pela navegação sonora do espaço e pela audição de histórias contadas por pessoas comuns sobre determinados lugares da cidade. O primeiro é o projeto Soundwalk que, como escreve Mark Kramer no Smart Mobs,
"could go beyond it?s commercial purpose and become a form of ?Aural Augmented Reality? for mobile learning. I can imagine how the Soundwalk could be used as a learning experience set in the real world using the cityscape as a backdrop for a ?ction, like in a movie. (...) 'Soundwalk is part of the o?cial programming of Nuit Blanche 2009, an international arts festival taking place in Paris on October 3. For this occasion, Soundwalk is launching an exclusive iPhone application that will be free to the public for one night only. In addition, all ?ve Paris Soundwalks, narrated by ?ve French actresses, will be free to download in their MP3 versions for Nuit Blanche'"
O segundo projeto que destaca a paisagem sonora e as narrativas é o canadense Hear about Here, afiliado ao projeto MurMur, já bastante resenhado nesse Carnet. O Hear about Here destaca a paisagem sonora e as histórias contadas por pessoas sobre a área central de Toronto e St. John. Ao se deslocar pela região, om passante pode-se ligar para um código afixado em um signal ([Here]Say) nas ruas e ouvir as histórias. Pode-se ouvir as histórias também pela Web, mas o melhor mesmo é a experiência locativa vivenciando ao mesmo tempo o lugar e a história contada sobre ele.
Vejam detalhes.
"[HERE]SAY WATER STREET- [murmur] St. John's a story cartography. St. John's is a landscape not only of streets and buildings, but of human experience -- this is what makes up the unique character of our city. The place is full of stories. Where most maps offer you a satellite view or a graphic layout of the street grid, ours is a story map. [HERE]SAY features personal stories set in specific locations in the Downtown. Take a walk on Water and look for the [HERE]SAY signs on the light poles. You'll see a phone number and a 3-digit code. Dial the number on your mobile phone, punch in the code, and hear a story about the spot where you're standing. If you can't get to Water Street, choose a location on the web map and listen online."
Sintéticamente podemos dizer que em todos os projetos vemos uma interessante valorização da experiência locativa e concreta, por intermédio das novas tecnologias móveis, acoplada às novas possibilidades de produção de informação de baixo para cima. Não se trata daquela posição de consumo que estamos acostumados a adotar quando nos deslocamos pelo espaço urbano. Há aqui potência efetivamente pós-massiva que pode trazer um novo engajamento com o espaço de lugar (através do espaço de fluxo e do casamento dessas duas dimensões nos atuais "territórios informacionais"). Os usuários dos espaço públicos das grandes metrópoles podem agora lutar contra a anomia, produzir informação (por meio de fotos, vídeos, áudio e textos), compartilha-las e colaborar na contrução de novas histórias. Abre-se assim, quem sabe, as vias para a criação de "novos sentidos dos lugares".
Interessante projeto que propõe mapear os sons de uma cidade, de Los Angeles, mas também de qualquer cidade do mundo, com celulares, GPS e mapas digitais. É o projeto Sonic Cartography: Mapping Los Angeles -- and the World -- Through Sound do artista alemão baseado em Berlim Udo Noll. Ele criou um site interativo que coleta sons captados por telefones celulares de qualquer lugar do mundo. Vemos aqui mais um projeto que visa buscar um sentido dos lugares, um entendimento do espaço a partir dos sons urbanos.
Sobre o projeto:
"Apogee Maps is an open project about the creation and exploration of public soundscapes. it collects and organizes recordings of daily surroundings and other sonic habitats from all over the world. the sounds are organized within a mashup system of mapping software, databases, telephone networks and the Internet. sites and sounds can also be explored and accessed in situ by recent GPS-enabled mobile devices."
Este projeto lembra o projeto da BBC, "Save our Sounds" que busca gravar e criar uma memória sonora mundial (embora não seja diretamente locativo) e também o "Define sua Cidade" dos meus alunos de graduação que colocam sons em lugares estratégicos de Salvador por meio de QRCodes (no caso um poema recitado de Gregório de Matos), como já relatados neste Carnet.
"When used in conjunction with Google Maps, the recordings become a sonic portrait of street corners, outdoor markets and public spaces around the world. The seemingly mundane sounds of traffic at the River Thames, kids on the playground in Munich, or maybe men arguing over chess at Union Square then become pieces of art, or possibly artifacts, framed by some unknown person captivated by the beauty of a particular moment."
"the project reflects on actual changes and developments in mobile computing and so called locative media, which we assume to be crucial to the way we experience our near future daily life, where media and markets will emerge at the precise position of our body. whether and how we can create and keep unoccupied spaces aside from predetermined functions and fictions, is an important question to the project."
Aliando mobilidade e localização, vemos efetivamente mais um projeto que busca potencializar as mobilidades física e informacional reforçando os vínculos com os lugares das grandes cidades do mundo. Sobre esta temática, escrevi recentemente para palestras no Rio e em Fortaleza (em breve um artigo sobre o tema) que :
"As novas tecnologias móveis e em rede implicam uma ampliação das mobilidades e, pela primeira vez, temos a possibilidade de exercer uma mobilidade física e informacional/virtual ampliada, consumindo, produzindo e distribuindo informação. (...) E para que esta mobilidade ampliada exista é fundamental a criação de uma interface entre o espaço eletrônico e o espaço físico ? que chamei em outros textos de território informacional e que outros chama de internet das coisas, espaço intersticial, híbrido, cíbrido, espaço aumentado... A mobilidade ampliada, tirando proveito ao mesmo tempo da mobilidade física e da mobilidade informacional, é dependente desta nova ?interface? entre o espaço eletrônico e o lugar físico. Esta interface cria viscosidades, atração, aderência a determinados lugares, diminuição do movimento físico ao colar em determinadas zonas (hotspots, 3G, bluetooth, RFID) para a ampliação do movimento informacional (Shirvanee). (...) Pensar mobilidade é pensar a nossa relação com o lugar. Toda a nossa experiência está fundada em lugares e por mais que as novas tecnologias sejam sofisticadas e permitam ações a distância, a nossa experiência é sempre locativa, fundada em um pertencimento local fluido e mutável. As mídias de massa tensionaram e criaram sentido de lugar. A nossa percepção do mundo e de nós mesmos se dá, na modernidade, pela nossa relação com o outro e com a imagem que esse outro cria de nós. Vendo TV, cinema ou fotografias, consumimos imagens do outro distante e criamos um sentido do nosso lugar no mundo e deste outro que está longe de mim. Está aí a tese de Mead sobre os ?significant others?. As mídias de massa expandiram a nossa compreensão sobre o mundo e sobre este outro genérico. Por isso Meyrowitz afirma que as mídias funcionariam como ?global positioning systems? mentais. Mesmo globais a recepção é sempre local, enraizada. Da mesmo forma, as mídias eletrônico-digitais, globais e telemáticas, não aniquilam o espaço-tempo, não criam um ?no sense of place?. A nova mobilidade informacional, cria "new sense of places" e "new sense of selves". Nosso pertencimento ao espaço de lugar continua, embora possamos manter relações comunitárias em qualquer lugar e com qualquer pessoa, de qualquer lugar do mundo."
Porjetos com mídias locativas podem servir como forma de narrativa sobre um determinado espaço urbano, ressantando características arquitetônicas, culturais, econômicas, turísticas, históricas. Neste último caso, podemos citar o trabalho "Riots 1831". O projeto é uma dramatização, em áudio, locativo, sobre revolta social em 1831 em Bristol, GB. Ao se deslocar pela Queen Square em Bristol, o usuário pode ouvir histórias cotidianas dos revoltados que protestaram durante três dias. O evento pode ser baixado aqui (mas, sendo locativo, voce deve estar no local para fruir a experiência). O trabalho é de Ralph Hoyte com a cineasta Liz Crow e considerado pelo the Guardian "the world's first audio-play for locative media in an intelligent environment". Mais detalhes:
"Once you are in Queen Square begin the mediascape by tapping on the screen. Walk around the entire central pedestrian area of the square to trigger the different stories. The mediascape is audio only and so you do not have to look at your device once it has started. To skip a story press the right cursor button. To pause the mediascape press the up cursor button."
Vale a pena aqui registrar um dos projetos pioneiros na produção de som com mídias locativas, o Sound Mapping de 1998. Esse projeto utiliza GPS, para monitorar movimentos de indivíduos no espaço, e malas como sensores que produzem sons em resposta ao espaço físico e ao movimento. Mais um projeto em que o objetivo é produzir sons que têm como origem o lugar (interação com objetos arquiteturais e pessoas). Interessante notar que as malas, objeto do viajante, representando o deslocamento e a "casa" do nômade, são os "instrumentos" de capatção dos sons do ambiente. Vejam o short video e ouçam o MP3 para ter uma idéia mais clara.
Descrição:
"Sound Mapping is a participatory work of sound art made for outdoor environments. The work is installed in the environment by means of a Global Positioning System (GPS), which tracks movement of individuals through the space. Participants wheel four movement-sensitive, sound producing suitcases to realise a composition that spans space as well as time. The suitcases play music in response to nearby architectural features and the movements of individuals. Sound Mapping aims to assert a sense of place, physicality and engagement to reaffirm the relationship between art and the everyday.
Sound Mapping is a collaborative project by Iain Mott, Marc Raszewski and Jim Sosnin. The premier exhibition was staged in Sullivan's Cove, Hobart by the Tasmanian Museum and Art Gallery (TMAG) on 29 January - 15 February, 1998. Sound Mapping was awarded an Honorary Mention in the Interactive Art category of Prix Ars Electronica. The project was exhibited as part of the Ars Electronica festival in Linz, Austria in September 1998.
This project is assisted by the New Media Arts Fund of the Australia Council, the Federal Government's arts funding and advisory body. Additional generous support from: Arts Tasmania, Vere Brown leather goods and luggage, Fader Marine, Salamanca Arts Centre, Hobart City Council and the Hobart Summer Festival."