André Lemos is Associate Professor, Faculty of Communication, Federal University of Bahia, Brazil. PhD in Sociology, Sorbonne (1995), Visiting Scholar University of Alberta and McGill University, Canada (2007-2008). Coordinator of Cybercity Research Group (UFBa/CNPq) and Researcher level 1 at CNPq. Member of Prix Ars Electronica, Wi. Journal of Mobile Media and Canadian Journal of Communication Board. This Carnet is online since March 1st, 2001.
Discutíamos no último post as narrativas locativas a partir do conceito de "terrative" de Michael Epstein. Através do twitter do The Guardian, vejo mais um dos inúmeros vídeos disponíveis sobre experiências comerciais e artísticas com a "realidade aumentada" (RA). RA é um sistema informacional que permite que o usuário olhe, através da lente da câmera e da tela de um celular (ou dispositivo similar), o "mundo real" "aumentado por informação eletrônica relevante sobre o mesmo (histórica, turística, comercial). Vejam o vídeo do The Guardian para ter uma idéia: Video: Augmenting reality.
O que quero destacar aqui, e a foto acima, congelada quando acabei de ver o vídeo mostra, é justamente essa nova lente de mediação entre o olhar e o mundo que se vê. No caso em questão, uma lente (os óculos), depois uma outra lente (a da câmera do celular) e depois o olhar para a tela do smartphone como mediadores de um olhar sobre o mundo. Como falei no último post, trata-se de uma forma de narrar e de consumir a narrativa pelo olhar. Podemos dizer que as experiências com RA são, nesse sentido, "terratives" (neologismo de "territory" e "narrative"), narrativas sobre os lugares.
No post anterior busquei Ricoeur para compreender a narrativa e mostrei rapidamente como toda narrativa é criadora da experiência humana do tempo e do espaço: ela é sempre temporal e locativa. O mesmo se passa aqui com os sistemas de RA. Se é assim, cabe perguntar aquilo que nunca aparece nas análises, matérias ou informações de divulgação sobre essa nova mídia (no sentido mais radical de "mediação"), a saber, sobre a qualidade dessa narrativa interpolada por lentes e telas, sobre a intenção locativa dos autores, sobre quem são esses autores, sobre as escolhas históricas do que está sendo contado sobre os lugares. Mais ainda, por que esses e não outros? O que faz, para além do apelo histórico, social, comercial, que uns lugares aparesentem informações eletrônicas e outros não? Que regime narrativo está em jogo quando dirigimos um olhar mediado por lentes e telas, guiado por informações eletrônicas fantasmagógicas se interpolando ao objeto observado?
A relação sujeito - mundo se dái nesse novo regime narrativo visual "aumentado". Portanto, cabem aqui mais perguntas sobre esse sujeito e sobre o status ontológico da realidade aí construída: Que subjetividade se constitui nesse ato de ver lugares em destaque informacional sobreposto ao objeto físico, "real"? E o que acontece quando, ao dirigir a lente e o olhar para a tela, o sujeito vê outros lugares/objetos onde nada aparece, onde estes são apenas o "mundo real", sem nenhuma explicação ou "realidade aumentada"? Esse regime narrativo de visibilidade irá tornar invisível aqueles lugares que são apenas "o mundo real", simples e sem nenhuma ampliação? Focaremos apenas o olhar naquilo que o "sistema" me indica como "informação que vale a pena ser vista"? Será que depois de algum tempo o "mundo como ele é" se tornará invisível aos olhares não mediados? Se é assim, a questão sobre a "realização" do mundo e sobre as suas formas de visibilidade tornam-se centrais para compreender a RA. Devemos questionar as narrativas em jogo com as mídias locativas, em geral, e com a RA, em particular. Daí a necessidade de saber que história está sendo contada, quem a conta e porque um lugar é eleito e outro não, porque vejo aqui e não ali. O que faz com que um objeto ser portador de uma narrativa e outro não? O que cala é tão importante quanto o que fala!
Se acreditarmos em Schopenhauer, a questão é de suma importância: "Le monde visible n'est que le miroir de la volonté."
Acabo de descobrir, por intermédio de Loreto Saavedra Sánchez (que conheci em 2008 no Media Lab Prado, doutoranda pela Universidade Complutense de Madri e que deverá passar um tempo como pesquisadora associada do GPC), o projeto de mapeamento de histórias de uma cidade, Bdebarna. Històries de Barcelona . Aqui os cidadãos podem escrever livremente sobre sua cidade e deixar suas impressões em um mapa para que outros as conheçam e participem por sua vez. Muito interessante os temas, os textos, e toda a experiência de apropriação narrativa da capital da Catalunha. A navegação pode ser por temas, por bairros, por autores, por histórias mais comentadas ou mais lidas. Há também fotos e vídeos, como os exemplos abaixo.
Vídeo (clique no link para ver no contexto)
Foto (clique no link para ver no contexto)
Abaixo uma descrição do projeto como no site e um comentário com alguns links.
"Què és Bdebarna?
"Hace unos años comenzaron a aparecer unos graffiti misteriosos en los muros de la ciudad nueva de Fez, en Marruecos. Se descubrió que los trazaba un vagabundo, un campesino emigrado que no se había integrado en la vida urbana y que para orientarse debía marcar itinerarios de su propio mapa secreto, superponiéndolos a la topografía de la ciudad moderna que le era extraña y hostil". Suicidios ejemplares de Enrique Vila-Matas
A la manera del protagonista de la història, ens hem proposat de posar al descobert el mapa secret que amaga Barcelona, el que ens fa la ciutat més habitable i la converteix en quelcom més que un munt de pedres, formigó i carrers.
Us heu enamorat passejant pels carrers del Gòtic? Teniu una proposta interessant per al vostre barri i la voleu donar a conèixer? heu patit les nefastes conseqüències de l'atac d'un colom a la plaça Catalunya i no sabeu on explicar-ho?
Sou aventurers de l'asfalt, somniadors desbordats d'històries de la ciutat? Voleu expressar-vos amb llibertat sobre tot allò que afecta Barcelona?
Us agrada conèixer les opinions de la gent? Descobrir anècdotes, idees, retalls d'altres vides? Aquest és el vostre site. Un site per construir i conèixer una ciutat diferent. Una ciutat de tothom."
Como alguns projetos já apontados neste Carnet (MurMur, Hear about Here, Organic City, entre outros), trata-se de novas possibilidades para produção de narrativas de baixo para cima, criando aberruras para se contar histórias, fazer críticas, dar informação, postar fotos ou vídeos sobre um determinado espaço urbano e ao mesmo tempo mapeá-las para que haja um enraizamento locativo da experiência.
Este e outros projetos do gênero indicam a força locativa da web 2.0. É muito bom ler as histórias oficiais das cidades, mas há aqui um frecor, uma apropriação criativa do espaço que as narrativas oficiais não produzem e não alcançam. Vemos no exemplo acima histórias contadas por pessoas comuns e por qualquer pessoa que se sinta envolvida com a cidade (no caso a bela e pulsante Barcelona). Esta apropriação narrativa do urbano se dá pela indexação geo-espacial seja de histórias de amor, de queixas, de relatos históricos, de ficção ou de fatos do quotidiano. Abre-se aqui as vias para uma verdadeira conversação localizada, típica das funções pós-massivas da Web 2.0, indexada em mapas.
Os mapas aqui podem ser verdadeiramente a expressão do território e, talvez, pela primeira vez, a sua representação exata em escala 1x1, o próprio território. Não seriam os mapas digitais uma performance produtora dos territórios, diferentes dos mapas analógicos, estes meras representações do espaço? A discussão é de monta e continuaremos em outro momento (aliás já fizemos algumas discussões sobre mapas nesse Carnet: aqui, aqui e aqui, algumas delas). Bom, sobre esse tema e hipótese, sugiro a leitura do texto "Locative Media and Spatial Narrative" de Martin Rieser e, principalmente do "The Territory is the Map - Space in the Age of Digital Navigation" de Valérie November, Eduardo Camacho-Hübner e Bruno Latour onde esta tese está mais explícita. Neste último podemos ler:
"We want to show here, thanks to the fecund interface of three fields, science studies, risk geography and knowledge management,4 that the lack of understanding of this relationship between map, territory and risks is an unfortunate consequence of the way the mapping impulse has been interpreted during the modernist period ?from the 18th to the end of the 20th century (Latour, 1993). So much so, that, as our title indicates, there might be nothing more in the territory than what is in the map. We want to argue that, because of the advent of digital navigation (Cartwright and Hunter, 1999; Fabrikant, 2000), a very different interpretation of the mapping enterprise can be introduced that allows to distinguish in retrospect a mimetic from a navigational use of maps. This distinction, in turn, might help geography to grasp the very idea of risks, and go beyond its divide between ?physical? and ?human? geography as some geographers have already exhorted us to do (Massey 2000, Lane 2001, Thrift 2002, Harrisson et al 2004). We might even in the end overcome the very difference between physical and human geography."
Reflexoes sobre possibilidades narrativas no uso das midias locativas. Temos tratado desse tema aqui com inumeros exemplos. Vejam trecho do texto do blog Excavating the Future:
"The how. That is, how do I create these narratives? A standard narrative, say, a movie or a book, forces you down a certain path. That is, you proceed from word to word, frame to frame, chapter to chapter, reel to reel, and and have no real say in the matter. If you skip to the end, you miss information in the middle that is essential to understanding the narrative (well, if it?s a good narrative, anyway). Now, there are ways around that: Choose Your Own Adventure books, for example, beloved of my youth, give you the option of which 'way' to go in the narrative, and in so doing, open up some possibilities while closing others. Could you build a geotagged 'CYOA' adventure, where you choose a destination and, in so doing, open up one possible set of conclusions while closing off others? Can you imagine the potential for romance authors? 'Does Veronica choose the strapping Biff and his farm in Ohio, or swarthy Julio and his seaside condo?'" (...)