André Lemos is Associate Professor, Faculty of Communication, Federal University of Bahia, Brazil. PhD in Sociology, Sorbonne (1995), Visiting Scholar University of Alberta and McGill University, Canada (2007-2008). Coordinator of Cybercity Research Group (UFBa/CNPq) and Researcher level 1 at CNPq. Member of Prix Ars Electronica, Wi. Journal of Mobile Media and Canadian Journal of Communication Board. This Carnet is online since March 1st, 2001.
Post do Delapierre Jerome Cart360 apresenta o game "Catch Me if You Can" no velho porto de Montreal, que agora tem uma rede Wi-Max em toda a área do velho porto. Vejam o vídeo do jogo, que utiliza Skype e webcams, a descrição e o mapa da zona Wi-Max abaixo:
Sobre o Game:
(...) In other word, we aim to create an experience that illustrates the quality of spaces covered of virtual reality. (Why this internet coffee where we are writing is different from any other coffee on the street?) As both spaces exist and no one would like to renounce the opportunities of the web and it communication possibilities, the web is going mobile through large wifi installations. This gives space for activities outside while making full use of the virtual environment. Moreover people have to get a feeling for having both realities at one time and to find a way of using them. By making full use of the large free wifi band located at the Montreal Old Port, an opportunity is given to explore an early example of doubling reality in their geography location. To dress the links between the two, this experiment aim to make your physical location having an impact on your virtual universe and vice versa. Using a man hunter game setup, real acting can easily be shared over the virtual space and create the connection between player localization and their actions in virtual spaces. A person only needs a headset and a webcam and others can follow her via the web. Having this addition point of view the people on the Internet can feedback, in a conversation format, to the real space. The person who is informed about several locations at one moment is able to combine this information to it?s real sensing of places.(...)".
(...) The game consists of two teams of participants all connected over one or few video chat software. Each Team designates a player who will act as the person in charge of the communication. These players are not running on the field and install their stations on a spot where they can provide information to the member of their team. They are the only ones who know where are the hunters as well as the escapers and they are the only ones able to communicate (describing) the location of the enemy to their team-mates. Even if the hunters/escapers take care of their own space sensing, the two game monitors (one for each team) provide an extra orientation fundamental to the game organisation and the essential strategy tool to ensure victory.(...)"
A Free WiFi network on 1.2 Km in a park
?Montreal will soon become the first Canadian city to deliver wireless Internet and mobile IP telephony to residents. A new WiMAX based Wi-Fi network is being deployed across the metropolitan area thanks to a joint venture between two Quebec-based businesses: independent Internet service provider Radioactif.com(TM) and Nomade Télécom, wireless network installer and operator. The mission of this joint venture is to create an alternative to large Internet service and IP telephony providers by offering quality services at the best possible prices. 'For less than $30 per month, Montreal residents will soon be able to have wireless Internet access and IP telephone service almost everywhere on the island,' explained Daniel Robichaud, President of Radioactif.com. (...)"
Estou lendo alguns artigos e em breve faço alguns comentários aqui. Os que estou lendo agora são: "New Maps for Old? The cultural Stakes of 2.0", de Caroline Basset, publicado na Fibre Culture, #13, e o "The Internet of Things. A critique of ambient technology and all-seeing network", de Rob van Kranenburg, da Waag Society, Holanda, que me foi enviado pelo próprio, ainda a ser publicado (o Felipe Fonseca, efeefe, é citado pelos trabalhos nos Pontos de Cultura, no Metareciclagem e no Descentro).
Enquanto leio e vejo que comentários fazer, seguem algumas fotos feitas ontem pelo Parc La Fontaine, Montreal.
Locative Media?
Mídia locativa analógica? Seta indicando direção de lugar nenhum sem nenhuma explicação aparente!
"Há, no entanto, mídias locativas analógicas. Podemos dizer que uma placa informando que um determinado lugar é uma pizzaria, um hotel ou uma loja de departamentos pode ser considerada uma mídia locativa. Ela contém informação agregada a uma localidade. Mas, a informação é estática, não sensitiva (...) . Ela não é ?smart?, isto é, não processa informação, não sabe quando foi vista, nem por quem, nem para que uso. No caso das mídias locativas digitais, esse mesmo painel ou letreiro, enviaria informações digitais por redes sem fio para dispositivos móveis. Essa informação poderia ser indexada a outras (websites, comentários de usuários), identificando o usuário e promovendo ações efetivas, presentes e futuras (...)" (Mídia Locativa e Território Informacional)
"Tout le malheur des hommes vient d'une seule chose, qui est de ne savoir pas demeurer en repos, dans une chambre." Pascal
"Une Saison a Venice", de Wtodzimierz Odojewski, Les Alusifs, Québec, 2006
Esse projeto faz parte de uma trilogia que preparo sobre escritas com GPS (ou "GPS Writing") nas cidades em que morei entre setembro de 2007 a setembro de 2008. O primeiro projeto foi o SURVIVALL, escrita com GPS tracker de carro em 40 KM de Edmonton, no Oeste do Canadá durante o inverno de 2007-2008. O carro é o meio de locomoção por execelência em Edmonton e a palavra "Survival", foi modificada para criar um jogo de sentidos. Survivall surgiu a partir do livro Survival de M. Atwood que argumenta ser essa a questão que perpassa toda a literatura canadense. Vejam o site para mais detalhes
No atual trabalho, escrevo, de bicicleta em 14 km, e de uma só vez (ou seja sem parar e em um único arquivo .gpx), a palavra "Identité", questão central no Canadá, mas particularmente forte em Montreal e em toda a região do Québec. Lugar de fundação do país, dominado por franceses, depois ingleses e depois franceses de novo, o multiculturalismo está presente e a tensão entre anglófonos e francófonos ainda permanece. Acho que essa região é que dá a tensão e a identidade canadense, além da única possibilidade de não se dissolver no vizinho do sul (os EUA). Montreal talvez seja a mais interessante cidade do Canadá, justamente pela questão/tensão identitária. A bicicleta é o instrumento de locomoção mais interessante (que uso diariamente) aqui e a palavra só poderia mesmo ser escrita em francês.
A terceira escrita com GPS será feita em Salvador, Bahia, Brazil em setembro de 2008.
Essas "escritas" estão inseridas no meu projeto de pesquisa sobre as tecnologias móveis, comunicação e espaço urbano (me interesso particularmente aqui pela invisibilidade dos processos subjetivos e pela relação pessoal com o espaço urbano - tornando-se depois, no mapa e na web, público e visível), que o leitor pode ver mais detalhes no meu Carnet de Notes. Usei o Wintec GPS Tracker, uma câmera de 8 MP Kodak, o programa "myTracks", para exportar o arquivo do GPS, e o "Quikmaps" para gerar o mapa digital na web.
Domingo de sol e entre uma leitura e outra, dirigo meu olhar para a cidade e tento também lê-la. No meio da rua, na McGill College, Then and Now, uma exposição de fotos do século XIX dialogando com outras atuais, iniciativa da Concordia University, com apoio do McCord Museum.
Homeless escrevendo e calculando!
Vejo um "homeless", cercado de sacos plásticos, uma calculadora e um bloco escrevendo compulsivamente. Depois, na esquina vejo marcas explícitas no chão, contra o desmatamento. Paro para almoçar no Comensal, restô natureba e a kilo (dica do Pierre Lévy, com quem fui a um mês atrás).
Marcas contra o desmatamento
Na sequência fui ver o festival internacional de Graffiti, Under Pressure, na Saint Laurent, no Quartier des Spectacles. Muita gente e a cultura hip hop a toda (graffiti, break, rap).
Graffiti no pátio atrás do Founfoun Electrique
E agora, para terminar, estou no Parc La Fontaine, na conexão aberta do projeto Ile sans Fil, onde já postei sobre os novos significados do lugar com a possibilidade de conexão aberta e a criação de um novo território (informacional) em meio às diversas outras formas de territorialização.
símbolo de redes sem fio? Ou são meus olhos?
Tattos no corpo todo - 100% segundo o prórpio - No Under Pressure
Fotos, marcas, grafftis, todas expressões urbanas que visam criar um enraizamento social, comunitário, seja pelo prazer solitário da escrita (o homeless), seja pela memória imagética (as fotos), seja pelos desenhos no protesto ambiental (as marcas no chão), seja pela escrita urbana dos graffitis (junto com skate e muito hip hop) ou no corpo tatuado.
O jornal cultural, e gratuiro, Montreal Mirror publicou essa semana uma matéria sobre o jogo pervasivo Geocaching. Geocaching é jogado em todo o mundo onde os jogadores devem encontrar coisas - caches - a partir de dados de localização com GPS e outras dicas misteriosas. O mapa abaixo mostra os inúmeros caches aqui em Montreal.
Esses jogos, com o uso de mídias locativas, criam formas de espacialização, possibilitam novas cartografias mentais e produção de heterotopias (função dos lugares) e sociabilidade. Escrevi na introdução de um recente artigo (ainda no prelo):
"Pervasive Computer Games (PCGs) combine digital mobile technologies and location-based systems by creating an interface between electronic and physical spaces for playing. Our goal here is to show how the new digital mobile technologies produce spacialization, i.e., a social production of space, particularly with the PCG. Spatialization is achieved through the use of technology, sensors and digital mobile networks (smart phones, palms, GPS and AR devices, RFID chips and GSM / GPRS, Wi-Fi, Bluetooth, Radio), creating informational territories. Play is, at the same time, the way to use the space and to result in social appropriation of mobile technologies and networks. (...) The goal is to examine, based on the history of the PCG, the forms of spatialization created by the use of location-based services and location-based technologies. At the end of this chapter, I will analyze 73 PCGs (from 2000 to 2008) to identify the forms of spatialization. We will see that the PCG uses informational territories to produce two temporary heterotopias: 1) the use of physical space for the game (hunt and chase are the majority), and 2) the relationship between physical space and space electronics (LB games are hegemonic)."
Vejamos, por exemplo, como, segundo jogadores entrevistados na matéria do Mirror, esse jogo produz espacialização:
"I've discovered parks I never knew existed in my own neighbourhood because of geocaching," says Jason Nadeau, aka DigitalMind. "I've met new friends through geocaching and even found neighbours who do it.?
"When visiting geocaching.com, players receive the coordinates and usually a clue as to where to look. GPS devices are precise, but even the correct destination covers a few square metres. "Once you get around 20 metres to the cache, you need to look with your eyes, not your GPS," says André Vandal, aka AV Design, who previously was a director of Geocaching Quebec and designed the organization's geocoin memento. "In the forest, it's easier because no one is ever going to find it accidentally, but in the city, it can't be much bigger than a 35mm film container. You have to look in places where the cache can be hidden all year round."
Postei recentemente sobre Role Play Games no Parc Mont-Royal e sobre o uso de redes wi-fi no parc La Fontaine, ambos em Montreal. Na o casião, ressaltava o novo sentido dos lugares (os parques) com o jogo e com o acesso a redes sem fio. Lendo o interessante artigo Reflecting on the Past, Speculating the Future: Feminist Interventions in Locative Media de Andrea Zeffiro na ".dpi: la revue électronique du StudioXX", sobre o pervasive computacional game, Hauting (um caça fantasmas com GPS e celular), destaco a seguinte passagem sobre função do lugar e o processo de espacialização em jogo com as míidias locativas:
Illustration: R. Fenwick, Co&Co Design
Processo de construção do jogo
"The Haunting team - regardless of one's task in the production process, the day of the week or forecast - visited the park weekly. At first, this involved exploring the space and mapping trails, observing the seasonal activities carried out by park visitors, and testing the various mobile devices for reception and range. As the team focused more intently on production, testing was held in the evening, given that the game was to be installed after sunset, and the focus shifted towards content development and debugging. The in-situ fieldwork enabled the team to confront challenges that might have not been apparent had production occurred solely in the lab. For instance, documentation was compromised in the winter because of batteries dying in extreme cold and due to the sheer challenge of gripping small technologies with gloved hands (Sawchuk 2007). These findings, given the technologies employed in game play, suggested that the winter was not an optimal season for locative media experiences. In addition, fieldwork was less welcome by park users in the winter as ?trail work' interfered with cross country skiing paths."
Nova Heterotopia
"However, this link to the local was not merely in terms of physical space. Rather, the project itself and those who were part of it were not merely accountable to the various groups and individuals sharing the space; it was also a question of negotiating the past (history of the area) with the present (present context of the park and the creation of the game), particularly in terms of content development. This meant a significant investment with the non-technological realm. While the technological component to The Haunting was significant in the evolution of the game, the technology became secondary or even, as a means of augmenting the social and cultural dimension of the park. And this is, I think, the strength of the project."
Quanto mais estudo as mídias locativas, mais me interesso (e estou atento) pelo/ao uso das ruas, com ou sem dispositivos eletrônicos. Evento em Montreal, Paysages Éphémères, propõe um uso temporário da rua através de diversas ações: performances, instalações, mobiliário urbano, micro-esculturas...Nada de tecnologias digitais, mas apropriação e uso das ruas buscando modificar a paisagem urbana. O cenário é a avenida do Mont Royal, no Plateau, onde as obras, sem nenhuma publicidade, criam pequenos estranhamentos, pequenas hierofanias no quotidiano. Os passantes páram, olham, fotografam, e se perguntam sobre a finalidade daquilo. O lugar vivido e praticado ganha assim uma nova coloração.
Sobre o uso temporário das ruas, indico a leitura do interessante livro "Temporary Urban Spaces" (Hayden, Florian, Temel, Robert. ed., Basel, Birkhäuser 2006), que apresenta vários projetos artísticos que tomam o espaço urbano para explorações efêmeras. Os autores afirmam: "Uses is, in any case, not a quality that is inscribed in things, buildings or spaces but rather social relationship in the triangle of property, possession and right to use. In that sense, use is a more or less flexible relationship within which people can make various uses of one and the same thing or, expressed more generally, can relate to this thing in different ways - and thus pursue different interests" (p. 26-27)
E sobre as paisagens urbanas, deixo uma citação do "A invenção da paisagem", de Anne Coquelin ( Martim Fontes, SP, 2007), já reproduzida em outro momento nesse blog (um pouco de redundância nunca é demais!): "(...) emolduramos, fazemos da cidade paisagem pela janela que interpomos entre sua forma e nós. Numerosas vedute, uma esquina de rua, uma janela, um balcão avançado, a perspectiva de uma avenida. O prospecto aqui é permanente. A cidade participa da própria forma perspectivista que produziu a paisagem. Ela é, por sua origem, natureza em forma de paisagem. (...) a paisagem urbana é mais nitidamente paisagem que a paisagem agreste e natural...sua construção é mais marcada, mais constante, ainda mais coagente. Ali tudo é moldura e enquadramento, jogos de sombra e de luz, clareira de encruzilhadas e sendas tortuosas, avenidas do olhar e desregramento dos sentidos?. (p. 150).
Algumas obras do Paysage Ephémères 2008:
O lugar das bikes, como os exclusivos para carros, do coletivo UTOPIE Paysages
Recliclar a cidade, do coletivo Vert Pétant.
Micros "menires" displiscentemente colocados na rua, dos membros do SYN - atelier d?exploration urbaine.
O crédito das fotos das obras é Denis Farley et Stéphane Bertrand.
Meio sem tempo para posts no Carnet, finalizando livros, artigos e preparando viagens e arguição de tese para a próxima semana. Assim, para preencher esse vazio, coloco algumas fotos que fiz na semana passada (estão todas no meu Flickr) no Festival de Jazz de Montreal.
Deixo também essa foto que fiz na segunda feira passada perto da minha casa, mostrando um graffiti de uma CCTV (câmera de vigilância). Gosto da ironia dessas fotos e do uso do espaço público pelos graffiti. A imagem aqui aparece como um fantasma de um objeto que poderia mesmo estar observando a rua. O graffiti tem, obviamente, uma função crítica, já que chama a atenção para o estado de vigilância pública atual, e para a disseminação desses dispositivos no nosso cotidiano. Mas fico me perguntando se isso não seria um aspecto preocupante de sua naturalização.
Final do concerto em homenagem a Leonard Cohen ontem a noite na Place des Arts, abrindo o Festival International de Jazz de Montréal. Vários cantores se apresentaram e, no final, a projeção de Cohen cantando Suzanne no seu último espetáculo em um teatro aqui perto.
Suzanne takes you down to her place near the river You can hear the boats go by You can spend the night beside her And you know that she's half crazy But that's why you want to be there And she feeds you tea and oranges That come all the way from China And just when you mean to tell her That you have no love to give her Then she gets you on her wavelength And she lets the river answer That you've always been her lover And you want to travel with her And you want to travel blind And you know that she will trust you For you've touched her perfect body with your mind. And Jesus was a sailor When he walked upon the water And he spent a long time watching From his lonely wooden tower And when he knew for certain Only drowning men could see him He said "All men will be sailors then Until the sea shall free them" But he himself was broken Long before the sky would open Forsaken, almost human He sank beneath your wisdom like a stone And you want to travel with him And you want to travel blind And you think maybe you'll trust him For he's touched your perfect body with his mind.
Now Suzanne takes your hand And she leads you to the river She is wearing rags and feathers From Salvation Army counters And the sun pours down like honey On our lady of the harbour And she shows you where to look Among the garbage and the flowers There are heroes in the seaweed There are children in the morning They are leaning out for love And they will lean that way forever While Suzanne holds the mirror And you want to travel with her And you want to travel blind And you know that you can trust her For she's touched your perfect body with her mind.
O bom de estar em Montreal é poder encontrar velhos amigos. Tomava um café perto da Place des Arts quando vejo passar um velho amigo, hoje com 73 anos, que não me conhece. Ele sempre esteve próximo, seja em suas músicas, poemas ou romances. Esses são os amigos imaginários e virtuais (esse é um dos efeitos da mídia de massa, nos sentimos próximos de artistas e personalidades que admiramos), presentes em momentos alegres ou difíceis. Quando o vi passar, fui em sua direção e me apresentei:
- Hi Mr. Cohen, my name is André, an old friend from Brazil. You don't know me, but you allways gave me support with your work.
Ele me estende a mão e sorri.
Digo a ele: "You're going to Brazil for a concert, right? Ele levanta as mãos e me responde: "oh, you know, I don't know, maybe one day". E sorri calorosamente. Digo: "yes, in São Paulo". Ele ri de novo. Sim, ele fará um concerto em São Paulo, mas parece não se lembrar... E fará um concerto hoje a noite (os ingressos esgotaram no mesmo dia ao preço de 180 dólares), depois de 15 anos sem se apresentar em público. Estava andando na rua a caminho do teatro. Passava despercebido pelas pessoas!
Pergunto: "Can we take a picture?" Ele diz, "sure". Me aproximo timidamente e ele me abraça, colocando sua mão no meu ombro. Uma pessoa que estava com ele fez a foto. Agradeço, desejo um excelente show e me afasto...quando me dei conta, estava correndo, com um riso bobo no rosto!
E hoje, dia da festa dos 400 anos do Québec aqui em Montreal, quem ganha o presente sou eu!
Um exemplo de novos significados dos lugares com o uso das tecnologias móveis e redes sem fio é a possibilidade de acesso à internet a partir dos lugares públicos. Venho sempre ao parque La Fontaine, no Plateau, em Montreal. Ando de bike e leio. Quanto preciso me conectar tenho que sair do parque e ir a algum café. Hoje achei um ponto de conexão wi-fi aberto (há vários fechados) e estou fazendo esse blog e publicando essa foto daqui (tirei a foto agora com o computador). De todos os lugares do parque, esse passa a ter um novo sentido e voltarei aqui mais vezes (com certeza há outros que descobrirei depois). O parque é um lugar público: pessoas passeando com filhos e cachoros, gente de patins e bike, gente ouvindo música, tomando sol ou lendo. Um território com suas leis, regulamentos e memória. Mas uma outra dimensão junta-se a essa: a informacional - o que venho chamando de "território informacional". E a seguran?a do lugar me permite usar um laptop sem a menor preocupação. Ou seja, o lugar é uma somatória de diversos territórios e suas funções.
Agora esse lugar tem uma nova função, uma heterotopia de conexão, adicionando à mobilidade física, outra, informacional (posso navega a vontade, blogar, micro-blogar...). Esse lugar agora tem um outro significado pra mim e posso sempre voltar aqui para curtir o parque e, quando não estou lendo, ouvindo música ou vendo as pessoas passearem, me conectar à internet. As redes sem fio e tecnologias móveis de acesso permitem assim, criar novas fun?ões nos lugares, adicionar elementos à memória do lugar e produzir novos significados. Não é um "não-lugar", não é um "lugar sem sentido". É o mesmo Parc La ontaine, mudando.
Pequena amostra em vídeo do satosphere, esfera imersiva com imagens projetadas em toda a superfície da esfera. Pude entrar ontem, no intervalo das conferências sobre imersão, e ter uma idéia da instalação. A imersão é visual e sonora. O projeto é de Johnny Ranger, co-produzido com Bernard Hebert, que falaram ontem sobre imersão e o projeto de "cinema 360".
A primavera chegou e embora não faça ainda calor (chove a a temperatura está entre 15 e 20 graus), a cidade está em festa. A avenida Mont-Royal fecha durante 4 dias para pessoas e os comerciantes (que colocam coisas nas ruas com descontos). É o festival "Nuit Blanche sur Tableau Noir". Tem-se um sentimento de comunidade forte e essa é uma das características do Plateau (o bairro). Música, pintura, performances, oficinas, etc., fazem parte da festa. É a 13a edição do evento e isso cria uma memória, um sentimento de pertencimento no espaço corrido e comercial da avenida. O evento (temporário) ajuda a fazer desse "espaço" um "lugar", pelo uso "tático" (De Certeau) que as pessoas fazem da rua. Explorei esse aspecto na análise sobre os pervasive games que publico em breve (ver post anterior).
Av. Mont-Royal fechada temporariamente para o Festival "Nuit Blanche..."
O som está presente, mas sem o barulho típico do Brasil. Temos aqui um exemplo, banal e muito conhecido no Brasil, de como as mídia produzem um sentimento de petenciamento, uma heterotopia. No caso em questão são as rádios-poste (como conhecidas no Brasil), como as fotos desse post. É midia de massa, com função locativa, mesmo que ela não reaja ao contexto. Como expliquei em outro artigo, é uma mídia locativa analógica de função massiva, diferente das mídias locativas digitais, que interagem com o contexto e desempenham funções pós-massivas, com as que venho destacando nesse Carnet.
Participei na terça e quarta passadas da pré-conferência "The Global and Globalizing Dimensions of Mobile Communication: Developing or Developed?" no ICA, aqui em Montreal.
Terça-Feira, dia 21
O evento foi de alto nível centrado em diversos aspectos do uso do telefone celular. Muitos dados e poucos vôos teóricos, mas interessante para ter uma visão geral dos estudos e para conhecer melhor as micro e macro relações sociais com o uso do celular.
James Katz, keynote da Pre-Conf
Os palestrantes mostravam suas pesquisas de terreno, os dados coletados e as análises gerais. Nada surpreendente mas olhares locais que ajudam a ter uma visão global dos diversos usos do telefone celular: mulheres e patriarcalismo, mercados na Índia, circulo intimo e reforço identitário, circulação financeira, design e educação...Fui dado um panorama dos usos do celular em vários países. As palestras praticamente não abordaram as experiências com as "locative media", arte ou games, o seja os "location-based services". A discussão sobre o espaço urbano é periférica.
A abertura foi com uma palestra, genérica, de James Katz. O título prometia algo ligado a cognição, mas esse foi apenas tangencialmente tocado. Katz mostrou o celular como um objeto "naturalizado" (ele não usou esse termo), expondo fotos dos mais diversos momento do aparelho na vida quotidiana. Mostrou o celular como artefato cultural (é produzido por e produz novos hábitos, crenças e costumes). Apresentou também algumas vantagens e desvantagens do dispositivo, sempre com dados mundiais. Segundo Katz, há hoje uma grande dependência : 51 por cento das pessoas dizem não poder viver sem um celular, criando o que ele chamou de ?nomophobia? ou ?no mobile phone phobia?. E isso é muito presente no uso que os jovem fazem. Sem o celular eles se sentem fora da vida social. Além disso, se você não tem um celular, você torna-se um problema para as outras pessoas.
Depois as comunicações.
Kas Kalba mostrou a penetração do telefone celular no mundo e sugeriu como hipótese uma correlação climática. O desenvolvimento começou nos países frios e estaria migrando para os países quente. Explicou a penetração da telefonia móvel na Itália pelo pioneirismo no uso de "pay-payed phone". As correlações são difíceis. México e Brasil têm menos celulares que Rússia e Estônia, embora os países latinos tenham uma PIB maior que os nórdicos.
Depois Rivka Ribak, apresentou os resultados de suas pesquisa com mulheres, adolescentes, no oriente médio. O uso de celular ;e universal mas afetado pela cultura. O global negocia com o local. Com práticas patriarcais, cria-se diferentes práticas de adoção e resistência do uso por adolescentes na Palestina. Ela realizou uma etnografia entre 2003 e 2005 com gartoras de 16 a 18 anos. Apresentou questões como: que idade é aceitável para dar um celular para meninas? O marido pode acessar o celular da mulher, e vice-versa? Como conclusão apontou para os antagonismos presentes na adoção do celular na Palestina. A tensão se dá entre tradicionalismo e progresso; protecionismo e liberalismo...
Dana Diminescu se interessa pelo fluxo financeiro e os migrantes e como a telefonia móvel age nesse contexto. A pesquisa busca entender como os migrantes desenvolvem suas relações com a mobilidade: a conectividade e o controle. Centrou a discussão na relação entre migrantes e transferência bancária, mostrando criticamente a relação entre os "mobile operators" e as "credit card companies" (atingem hoje 200 milhões de trabalhadores). Analisou países como Filipinas, Quênia, Índia, França. No entanto, o conceito mais interessante apresentado foi ?habitèle?, proposto por Dominique Boullier. Habitèle é ?a concrete form of connectivity. It refers to all the underpinning of our feeling of belonging - city, national, bank, social networks). Para Boullier,
"L'habitèle désigne ainsi ces dispositifs portables chargés d'information qui nous maintiennent en lien avec nos mondes d'appartenance et qui 'étendent notre bulle' (E. Goffman) au-delà de l'espace de co-présence. Les objets deviennent alors une part de nous-mêmes, ils deviennent en cela très singuliers, car deux portables identiques à la production ne le restent guère dès qu'ils sont entre les mains de deux utilisateurs, d'autant plus facilement que le numérique les rend plastiques, transformables, paramétrables en fonction de la personne." Ou seja, tudo que diz respeito a acesso e pertencimento a um território informacional: senhas, códigos e poder em forma de bits e bytes. Habitèle é como uma "segunda pele", um novo território, um "território informacional", uma zona de acesso informacional controlada.
Já Katie Lever apresentou sua pesquisa com estudantes secundaristas nos EUA para saber como eles usam o iPod, como eles consomem "mobile music". Criou um grupo focal com 43 estudantes e analisou 200 questionários na primavera de 2007. Buscou responder perguntas como: o que motiva ter um MP3 player? onde e quando usa? sentem-se isolados?...etc. A questão da pesquisa é se os MP3 player causam isolamento ou, ao contrário, criam "community building". Há hoje 90 milhões de usuários de iPod. Citou autores que abordaram o tema com Bull (público e privado), Coyne (situação, não-lugar) , Gergen ("absence presence theory"), Garfinkel, 1967 (social control ? controle sobre o ambiente). Para ela, a idéia de um ?soudtrack for life? remete ao "non-place". A idéia é que, já que me isolo e crio o meu som, estaria produzindo um "nao-lugar". No entanto, como mostrei em outro post, podemos pensar que o usuário apenas cria uma modulação do lugar (o som). Mudando o som, muda-se a relação com o lugar. Conclusão: os jovens usam os players para mudar de humor, escapar de constrangimentos e criar outra relação com o espaço e o tempo.
Quarta feira, dia 22
Andrea Kavanaugh, Virginia Tech, HCI, explorou a relação entre o uso do celular e os iletrados. Apontou o celular como "scaffolding technology" (scaffolding : abrigo para trabalhadores) e mostrou problemas e idéias para o design dos aparelhos. Entrou em algumas particularidades e citou o ?jitterbug cellphone? (telefones com apenas o pad com números, on-off e 911) como sendo útil para pessoas analfabetas. Em comparação entre o telefone fixo, celular e computer, o celular é um computador ("screen, files, save, pictures, audio...").
Depois, Dawna Ballard, dos "communication studies" da Universidade do Texas, apresentou sua pesquisa sobre temporalidade, aqui compreendida como as relações pragmáticas como a conexão, a conectividade, o tempo de uso, a hiperconexão (usar sem parar SMS, e-mail, blogs, facebook, twitter...). Em estudo com 2400 pessoas e 17 países mostrou que quase 17% das pessoas são hoje hiperconectadas. A relação com o celular implicaria novos padrões globais e locais do tempo (temporalidade pensada como freqüência de uso). Noções como ?perpetual contact? (Katz, et al), ?space of flows? (Castells), ?network time? (Hassan, 2007), ?presence-absence? (Fortunati), entre outros perpassa a pesquisa. Há particularismos culturais. Citou também a inter-relação entre microblogging e co-presença, dando o exemplo um evento onde os organizadores mudaram a dinâmica depois de discussões no Twitter, mesmo estando todos no mesmo lugar.
Gwen Shaffer da Temple University, Philadelphia, analisou o sistema de acesso a rede "peer to peer" e apontou como este pode ajudar a diminuir o "digital divide". O enquadramento da discussão se deu em termos de economia política, esfera pública e mobilização social. A solução apontada, depois de fracassos no MetroFi, Earthlink, etc, é em sistemas peer to peer com mesh e ad hoc networking. Há problemas de modelos de negócios e os sistemas abertos parecem ser uma alternativa. 54% dos usuários dizem usar conexão de outros. Citou exemplos de mesh como Meraki, Fon, Whiser, já mostradas nesse Carnet e também experiências com as "community networks" como Upsi, Seattle Wireless, Juneau Wireless...entre outras, ou ainda as européias FunkFeuer, Guifi.net, Athens Wireless, Metropolitan Network, czfree.cz..., usando open source software. Os obstáculos são as ISPs, a regulação Federal e o medo em relação à segurança e à privacidade.
Timo Saari, também da Temple University, discutiu o uso social e o espaço público. Como temos mostrado aqui, a "ubiquitous computing" reúne processamento de informação, redes sem fio, sensores e dispositivos móveis, "integrated into everyday objects and activities". Aqui o termo é sinônimo de "pervasive computing". Citou o trabalho de Hiroshi Ishii e sua idéia de "ambient media", com zonas de fachada e de fundo (foreground x background). -> Goffman ? gestalt. Mostrou vários exemplos em que o contexto (o lugar) conta: orientation/ multitasking/ mobilidade, criando o que ele chamou de "psychological sphere"! A pergunta que sua pesquisa tentou responder foi: "what is the effect of context on our use of cellphones?" No meu caso, a questão é a mesma mas invertida: "how te context change with the use of cellphone (microrelacao social, novas funções para antigos lugares, novas funções para novos lugares...), ou seja, como o uso do celular muda a relação com o contexto! Ele chama de "social media" (haveria alguma mídia que não fosse social?) o que prefiro chamar de mídias de função pós-massiva (myscape, facebook, microblogs...). Afirmou que o futuro é "location embedded/physical embedded" e que estaríamos ainda na era da "ubiqutous computing", caminhando para o "embedded universe".
Scott Campbell da University of Michigan discutiu a relação entre "mobile communication and public space", interessado nas relações entre as tecnologias móveis e o engajamento cívico e político. Mostrou que há duas formas gerais de relação com o espaço público: uma informal ? doméstica, pessoal, e uma outra formal, política e cívica, como as diversas manifestações conhecidas como "smart mobs". Citou Castells, Rheingold e Putnam, mostrando o declínio do capital social nos EUA. Sua pesquisa está centrada nos usos: "information exchange / sociability / recreation". Afirmou que os estudos anteriores da internet estavam centrados em questões como "isolation, alienation, less face to face". No entanto, ele afirma que há, diz sua pesquisa, formas de "community building", "informal socializing" que reforçam o capital social e que esse uso informal é importante para um uso mais formal das tecnologias. Segundo afirma, a tendência é haver um aumento do engajamento civil e da participação política.
Rich Ling
Rich Ling mostrou sua pesquisa sobre o uso do celular em círculos íntimos se perguntando se o dispositivo reforça ou não as relações mais íntimas. Ling fez uma pesquisa sobre a situação na Noruega e na Ucrânia com 2325 questionários respondidos na Noruega e 1028 na Ucrânia. Na Noruega a situação é de uma maior penetração e uso de SMS: todos tem celular. Na Ucrânia, apenas os mais jovens. A Ucrânia usa mais voz que SMS, depois e-mail e IM. Na Noruega o celular tem forte penetração entre os teens sendo o uso de SMS bastante difundido. E-mail é pouco usado (sendo considerada uma ferramenta para "velhos". Ling apresentou vários dados e na conclusão afirmou que os celulares suportam interação no "intimate space", que os serviços avançados (Web, IM, Micro-Blogging, etc) "have only limited acceptance".
Jonathan Donner, da Microsoft Research Índia, mostrou uma tipologia do uso dos celulares na Índia para o comércio informal. Os celulares ajudam a reduzem custos, permitem uma comunicação de proximidade e informal com clientes e fornecedores, que ele facilita as "trust-based relationships", aumenta a produtividade e que eles seriam vitais "not for make but for getting money". Citou exemplos sobre o mercado de peixes na Índia. O celular serve aqui para: "serve costumers, get price information, coordinate with trusted partners, serving existing customers, acquire new constumers, bypass middleman, start new business". Seria também uma forma de substituição dos telefones fixos. O mote é micro-coordenação e mobilidade, afirmou (fishemen, taxidiver, roaming traders). A aplicação mais usada é a voz. O celular potencializa os negócios já existentes, ao invés de transformá-los completamente. Da mesma forma, Harsah de Silva, mostrou os benefícios econômicos do acesso à telefonia móvel na Índia, no Paquistão, no Sri Lanka, Filipinas e Tailândia.
Por último, Rich Ling apresentou o trabalho de Helmersen, da Telenor, sobre a prática dos "miss calls", ou seja o uso do celular como código sem pagar a comunicação: uma pessoa liga e desliga antes da outra atender, deixando o numero registrado e, consequentemente uma mensagem: "quando eu ligar, isso significa que já cheguei no lugar do encontro. Segundo a pesquisa há problemas de congestionamento (?) do tráfico na rede e não há lucro para as empresas (?). Segundo a pesquisa, 2/3 do tráfico são de "miss calls". A pesquisa desfaz também alguns mitos: 1. que apenas as pessoas com poucos recursos fazem esse tipo de ligação; 2. que a motivação é apenas econômica, mostrando que isso faz parte do "teens entretainment"Interessante sobre aspecto das relações com o celular ainda pouco estudado.
Na soma, o evento foi bom para conhecimento de práticas embora tenha sentido falta de teorias mais complexas que não sejam apenas derivadas da análise dos dados coletados.
Ontem a noite fui ver o festival internacional de artes digitais, Elektra, em sua nona edição. Há uma programação extensa em locações diferentes na cidade. Na programação de ontem no Usine C, instalações e performances.
Entrada no Usina C, lustres com garrafas quebradas
Vou destacar apenas duas obras. A instalação "Capsule Optofonica", uma cabine que envolve o usuário com sons e imagens (há também vibrações sentidas no chão). No interior há um palm com tela táctil onde se escolhe o clip e ajusta-se a altura do sistema sonoro. Interessante a atmosfera criada e o universo sonoro e imagético acionado. Vejam fotos abaixo...
Capsule Optofonica
Cabine em uso
O mais interessante foi a performance TVestroy, de Thomas Quellet, Fredericks + e Danny Perreault. com projeções e telas de tv experimentando a relação entre imagem e som. Som e imagem emergem simultaneamente: o som é a imagem! Hipnótico e perturbardor. O vídeo abaixo é só para ter uma idéia e não reproduz nem de perto a experiência. O som faz uma grande diferença: potente, super graves, reverberando no corpo. Uma experiência corporal intensa...
A conexão wi-fi no trem Via Rail de Québec para Montreal, que estou usando agora, é um exemplo concreto da complexificação da mobilidade em direção à uma "mobilidade total". Aqui temos todas as mobilidades: a fisica (corpo/transporte), a informacional (acesso a informação com possibilidades de emissão e produção de conteúdo, como esse post) e imaginária (os devaneios da minha mente em meio ao espetáculo que desfila pela minha janela...). Aqui vemos essa nova heterotopia informacional de um "lugar" que se desloca (o trem, como o navio para Foucault). Esse lugar (trem) ganha uma nova função (heterotopia), um novo sentido, ao permitir o acesso e a produção de informação, como estou fazendo agora. Há várias implicações positivas e negativas (que não vou desenvolver agora) mas apenas indicar: várias pessoas estão, como eu, conectadas, trabalhando, ao invés de estarem curtindo a viagem; não há muita conversa, a não ser duas senhoras que estão atrás de mim e não páram de falar ;-)), etc. Temos assim um trem como qualquer outro, só que com novas funções, que tenho chamado de heterotopia do controle informacional. Vejam a análise que fiz do avião em outro post que remete à essa mesma discussão.
As novas heterotopias são uma das questões mais importantes da nossa época. Michel Serres, em "Les Messages à distance" (Editions Fides, Montreal, 1995) que estou lendo agora nesse trem (sim, deixo a conexão de lado e leio, vejo a paisagem, ouço música...), começa o livro mostrando as mudanças na dimensão humana do trabalho e os regimes históricos que ele associa à primeiramente a Hercules, a força, o artesão, depois a Prometeu, o fogo, a máquina industrial, e agora a Hermes, a comunicação, a mensagem. Estamos agora, segundo Serres, no regime dos "Angelos", os mensageiros. Na passagem abaixo vemos bem o trabalho em meio a essa "mobilidade total".
Ele afirma:
"Considérez, le matin, lorsque vous partez au travail, la foule qui s'écoule par les rues: combien peu de Prométhées, encore moins d'Hercules et d'Atlas, pour tant et tant d'Archanges, partant en voyage, porteurs de messages? Nous vivons désormais dans une immense messagerie, où nous travaillons, pour une majorité, comme des messagers: partons moins de masses, allumons moins de feux, mais transportons des messages, qui, parfois, commendent aux moteurs. Messagers, messages et messageries, voilà, en tout, le programme du travail. Aux plans de l'architecte, aux dessins industriels succèdent réseaux et puces." (p. 12).
A segunda mesa redonda foi realizada no espaço VOX, no "red light district" ao lado da SAT, para um discussão chamada "espace mobile". O objetivo era discutir as mudanças desse bairro que será transformado em um "quartier du spéctacle".
A abertura do evento foi coordenada por Marie-Josée Jean et Patrice Loubier que apresentaram os desafios que se colocam na modificação do bairro. Depois vieram as falas de Anouk Belanger, professora de sociologia da Université du Québec à Montréal, sobre a "culture populaire urbaine à Montreal" e as questões sobre a revitalização do bairro. Depois, Annie Roy, da "Action terroriste socialement acceptable ? ATSA", mostrou ações concretas e a necessidade de uma realização efetiva no local...Vários artistas estão realizando obras durante o evento.
Para o que me interessa, o mais interessante ontem foi conhecer os trabalhos do artista Renaud Auguste-Dormeuil (FR), interessado nos processos de vigilância e de militarização. Vou tentar aqui, rapidamente, descrever alguns projetos e fazer uma ponte com o problema das midias locativas.
Renaud Auguste-Dormeuil
Ao chegar em Montreal, no aeroporto, Renaud recebeu um guia da cidade no onde são propostos 5 percursos turísticos. Esses percursos visam mostrar uma Montreal bela, dinâmica, multicultural, segura. O lugar é assim investido dos "mitos e sonhos" das instituições; um lugar idealizado. Para Renaud, o papel do artista é "injetar realidade" nos sonhos produzidos por aqueles que controlam o espaço urbano. Assim, ao receber o guia, Renaud fez os mesmo percursos a pé, mas agora anotando todas as câmeras de vigilância visíveis (com endereços precisos e nome dos proprietários). Depois ele produziu um mapeamento das câmeras e colocou uma "errata" no guia gratuitamente distribuído. Fotos abaixo
Mapa, errata e guias com erratas das CCTV
Detalhe da chamada principal da errata
Ele fez o mesmo em Paris (e ele exlica que as autoridades mudaram o nome de câmeras de "tele- vigilância" para câmeras de "tele-segurança") em alguns outros projetos (visita audio em museu para as obras vigiadas ? vinculada diretamente ao seu valor; desenhos da Disney onde aparecem câmeras de vigilância; espelhos que desviam o "olhar dos satélites" (foto abaixo), visualização da forma como os GPS monitoram as pessoas (foto abaixo), entre outros. Um dos mais interessantes é o projeto MABUSE onde o artista criou um percurso turístico em micro-ônibus para que "turistas" pudessem ver as câmeras de vigilância da cidade (as mais importantes vistas e filmadas no mundo, como a do obelisco da Place de la Concorde ou as do Hotel Ritz que pegaram as últimas imagens de Dodi e Diana...), mostrando sua história.
Bloqueador da visão dos satélites, por espelhos
Esquema visualizando a forma de vigilância por GPS
Para o que me interessa aqui, gostaria de destacar que esses projetos artísticos (e outros que tenho apontado aqui nesse Carnet) visam tornar visível o que passa despercebido na prática do uso do espaço urbano: as câmeras de vigilância (mesmo visíveis em alguns casos) e as mídias locativas de monitoramento de movimento (celular, interent wi-fi, GPS...). Citamos outros projetos que vão nesse sentido como o iSee, os trabalhos de Elahi ou Teran.
O lugar não é uma propriedade das coisas que ele contém, mas um conjunto de "containers" criado também pela própria coisa. O lugar é real mas não material. Para aristóteles. Para Aristóteles o lugar de uma coisa "x" é a fronteira imóvel que a contem. O lugar é o que faz sentido. Como afirma Mohan Matthen (sobre Benjamin Morison, On Location: Aristotle's Concept of Place):
"I'm in Vancouver. Is Vancouver predicated of me in? Not at all. What is predicated of me above is being in Vancouver, or disregarding the copula as Aristotle customarily does when specifying predicables, in Vancouver. Vancouver is not the same as in Vancouver; the doctrine of the Categories shows only that the latter is (subordinately) real, not that Vancouver, or 49.5 degrees, is. Aristotle is perfectly well aware of this. In Categories 4, the relevant category is not place, but where. Where am I according to (4)? The proper non-elliptical answer is not ?Vancouver? but ?in Vancouver."
Lugares são ontologicamente subordinados às coisas que contêm...
"and that places like the centre and the periphery play a role in this entity akin to that played by organs ? functional parts ? in an animal. My lungs have a certain potency that suffices to explain some of the things I do, and so they are real. However, because they are parts of me defined by their function in the whole, they are ontologically subordinate to me. The same can be said about the centre of the universe with respect to the universe. It too has a certain potency defined by its role in the whole. Note that this way of explaining how Aristotle attributes causal potency to place does not assume that every place has potency. There is no direct route from the truth of (3) to the causal potency of a location that is 49.5 degrees north."
O lugar VOX
O que podemos dizer aqui é que essas obras com mídias locativas e tendo como fundo o spa?o urbano visam trazer a tona todas as dimensões materiais e não-materiais dos lugares, e não apenas aquelas produzidas pelos poderes constituídos, não apenas as dimensões dos sonho, da ideologia e do mito. Ela buscam, como mostram os trabalhos de Renaud e de Annie do ATSA, injetar realidade e fazer com que esse lugar assim produzido (como um não-lugar, asséptico, convivial, seguro) possa fazer sentido. Um percurso turístico proposto é o mesmo para todos. Um percurso turístico alertando para os lugares onde o turista será vigiado tem uma outra conotação. Se as câmeras produzem o sentimento (atual e futuro) de medo no "sujet insecur" (ver post sobre o assunto com a palestra de Rosello), pela sua prórpia materialidade, elas são também, pelo caráter normativo, produtoras de "não-lugares" (ver post sobre o assunto).
Talvez possamos dizer que essas práticas artísticas com as midias locativas, aí incluíndo as câmeras e demais dispositivos de vigilância, sejam tentatvas de resignificação dos lugares pela visualização de processos invisíveis, embora performativos no espaço urbano, revelando o que está oculto (na materialidade das câmeras, nos espectros de rádio de zonas wi-fi, celulares, RFID, GPS...). Essa revelação seria uma forma de "desterritorialização", ou seja, de transformação desses "não-lugares" em um lugar social (zonas de envolvimento das coisas que fazem sentido socialmente). Aqui, mais uma vez, os projetos desses artistas "injetam" o real nos ideiais racionalizantes e asseptizantes do planejamento urbano, criando assim um espaço socialmente produzido (Lefebrve).
Escrevo esse post no trem para Québec onde participo de um evento, o ACFAS 2008 (como convidade de última hora). O trêm tem wi-fi a bordo, pago - 8 dólares por 24h (o primeiro que pego com esse serviço).
Trem com conexão Wi-Fi no Canadá, ViaRail Montreal-Quebec
Ontem ouvi duas mesas redondas, uma sobre a literatura na era digital e outra, "espace mobile", sobre as transformações do bd. St. Laurent na VOX. Nesse post vou falar da literatura na era eletrônica.
A primeira mesa-redonda foi sobre a "Littérature Electronique", no 10e. Festival Littéraire International de Montreal, com a presença de Hervé Fischer, Yannick B. Gélinas, Bertrand Gervais, Alice van der Kei e Bruno Guglielminetti, coordenador. A discussão ficou no reme-reme dos anos 90, a saber a literatura multimidiática, o hipertexto, o papel do leitor, agora autor, etc. Pouca discussão sobre a atulidade do fenômeno como os blogs e nada sobre os novos formatos como a literatura por telefone celular (muito popular no Japão) ou as experiências de construção literária multimidiática com as ferramentas locativas, como tenho exemplificado nesse Carnet.
Mesa redonda sobre literatura digital
A discussão, ao meu ver, foi interessante para um público leigo. O debate girava em torno de falsas questões: se o meio digital suporta ou não a literatura (blog é literatura?, hipertexto é literatura?), se o novo formato vai apagar as outras formas literárias, se será o fim da memória pela volatilidade eletrônica, se o leitor é ainda leitor ou um interator, etc.
Toda literatura é um hipertexto, onde o leitor é sempre ativo. Sou um leitor de romances e me sinto parte ativa da obra e me deleito com histórias contadas por outros sem que eu tenha que me colocar ou participar de alguma forma outra que não seja lendo. Há diferenças, entretanto, entre os formatos (e sempre foi assim desde a invenção da escrita). Com o meio digital a rede cria possibilidade de escritas coletivas (vejam o meu Janelas do Mundo). O meio digital e as tecnologias de acesso permitem formas diferenciadas de leitura (quando, onde e como) e a liberação da emissão abrindo as vias da distribuição a jovens escritores (que normalmente têm as portas das editoras fechadas).
Trata-se, na realidade, não do fim da literatura (quem poderia decretar isso?) mas da emergêcia de novos suportes e, consequentemente, de novos estilos. E "A" literatura é isso no final das contas, um amálgama de estilos que passou por diversos suportes até a canonização do codex medieval. A literatura não pode ser definida pelo suporte. Ela mudou ao longo os séculos e hoje assume uma outra forma que não é excludente. Há assim uma reconfigura?ão de estilos, mas não o fim da literatura. A literatura não é propriedade de um suporte. Não devemos pensar um formato contra um outro. O que vemos hoje é uma ampliação (argila, papirus, pergaminhos, codex, livros, hypercard, hipertexto web, blogs, celular, mídia locativa...)... E cada suporte tem seu charme, sua poética e seus leitores. No fundo somos nós os multimidiáticos, não os suportes. O que vemos hoje é uma expansão de formas expressivas da ficção (celulares e mídias locativas como filhos mais novos). Cabe aos artistas escritores definirem seus rumos. A questao não é a morte de uma forma hegemônica, o Codex, mas a abertura e o convívio de várias maneiras de se "contar histórias".
Leitor no metrô de Montreal
A mesa chamava a atenção para a necessidade de se conservar a memória (supostamente garantida no impresso e fragilizada com o digital) e que ainda haveria necessidade de um suporte material. Ora, mais uma vez tenta-se aplicar procedimentos do codex ao meio digital. Podemos certamente dizer que a memória que temos da literatura mundial está longe de ser uma memória exaustiva do que foi produzido nas diversas épocas da humanidade. Livros foram destruídos, escritores banidos, reprimidos...(vejam o belo livro "História universal da destruição dos livros - Das tábuas sumérias à guerra do Iraque" do venezuelano Fernando Báez). A memória que temos hoje na materialidade do impresso é aquela produzida por poderosos vencedores ao longo dos séculos. Hoje a efemeridade do digital pode ser um traço do estilo...e será conservado aquilo que mais circular, já que no digital o consumo é a circulação. Talvez essa forma de manutenção de uma memória literária coletiva aberta seja mais interessante do que aquela assumida por instituicoes que filtram e estão a mercê dos poderes constituídos.
Mais uma vez os três princípios gerais da cibercultura se aplicam aqui: emissão, conexão, reconfiguração.
Iniciativa da Vox, evento "Espace Mobile" visa discutir arte, mobilidade e espaço urbano no centro de Montreal. O evento vai de 5 de abril até 31 de maio, mas a vernissage com um colóquio acontece dia 3 de maio. Trabalhos de vários artistas (Renaud Auguste-Dormeuil, Gilbert Boyer, Christoph Fink, James Partaik, Jocelyn Robert, SYN - [Jean-Maxime Dufresne, Luc Lévesque, Jean-François Prost], Felicity Tayler) serão apresentados sobre a temática da mobilidade e da transformação urbano. Um resumo dos trabalhos pode ser visto no site da Vox. Vai ser oferecido também um Workshop para jovens ensinando o uso de celulares e GPS como instrumentos de produção de conteúdo sobre a cidade. Mais infos no site da VOX. Trechos:
"L'hypermobilité des individus aujourd'hui, le développement urbain de Montréal en archipel spécialisé, le tourisme de masse et, par conséquent, la multiplication d'activités culturelles et festives transformeront les usages du centre-ville et les manières d'y circuler. Espace mobile souhaite observer et interroger les transformations imminentes de ce territoire où VOX s'est implanté en 2004.
(...)Sept artistes ont été invités à réaliser une série de visites de cet environnement urbain pour proposer ensuite au public de multiples parcours en faisant de l'intersection du boulevard Saint-Laurent et de la rue Sainte-Catherine l'épicentre de leurs recherches. Loin de se cantonner dans la seule transcription visuelle de la géographie physique ou urbaine de ce territoire, les parcours guidés ausculteront des strates variées de ce milieu ? aussi bien l'espace sonore ou les représentations touristiques que l'embourgeoisement ou les équipements de surveillance, entre autres. Adoptant pour la plupart la modalité du work in progress, les projets se déploieront durant toute la durée de l'événement et prendront la forme de cartes et de propositions de trajets, de documentation photographique, sonore ou vidéo, de notations, voire de véritables circuits commentés. Ainsi la carte se superposera-telle concrètement au territoire, en donnant lieu à des interventions tels des échantillonnages, des rencontres, des investigations et des randonnées. La formule activera aussi un processus de va-et-vient entre la galerie et le milieu urbain, entre la documentation et l?expérience vive de la cité.
(...)Forums de discussions et ateliers pour les jeunes. La technologie cellulaire et bientôt celles de la géolocalisation (GPS) transforment les interactions sociales et urbaines. Ce tournant mobile dans les communications, moins futuriste qu'on ne l'imagine, est en passe d'opérer une transformation culturelle profonde qui sera le thème de forums de discussions organisés pour les adolescents. Sous la supervision d'un éducateur, les jeunes seront aussi amenés à circuler sur le boulevard Saint-Laurent et ses environs pour capter des images selon des points de vue sur cet environnement qu'ils n'auront encore jamais expérimentés."
Depois de uma dia comendo tiras de érable e visitando uma "cabana à sucre" perto de Montreal, com direito a andar com "raquette" na neve, volto pra casa e sou informado que o SUR-VIV-ALL está no Networked_Performance e em destaque no Trópico. Feliz com a lembrança e com o bom fim de domingo.
Montreal é uma ilha desplugada. E não é utopia não! Tenho tido certa facilidade para acessar a internet a partir de hotspots abertos, tanto de casa (o meu está aberto), como de cafés, restaurantes, e até da rua. Não é o paraíso já que a maioria dos hotspots que aparecem no meu computador estão fechados, mas o espectro envolve grande parte da ilha. A maioria dos cafés e alguns restaurantes oferecem o serviço de graça e alguns usuários deixam a conexão aberta.
Um projeto interessante, já reportado nesse Carnet, é o Ile Sans Fil Montréal, uma organização sem fins de lucro que estimula e ajuda a criar hotspots abertos e gratuitos pela cidade. Podem se associar estabelecimentos comerciais e pessoas comuns. Na próxima sexta feira haverá um encontro em um café e vou ver de perto a experiência. Já me conectei em vários pontos participantes do projeto (vemos um adesivo na entrada indicando o "île sans fils"). Há projetos similares já conhecidos como Seattle Wireless, NYCWireless, Paris Sans Fil, Wireless Toronto, British Columbia Wireless, entre outros.
Abaixo a descrição do projeto. Acima mapa dos pontos de conexão.
"Île Sans Fil est un organisme sans but lucratif voué au développement d'une infrastructure de communication gratuite permettant de renforcer les communautés locales de la grande région de Montréal. C'est à la fois un organisme de développement technologique et un organisme communautaire réunissant professionnels et étudiants de plusieurs horizons. Les bénévoles du projet Île Sans Fil partagent la vision qu'il est possible d'utiliser les technologies modernes de télécommunication, et en particulier les technologies sans fil, afin de contribuer à briser l'isolement des citoyens à l'échelle locale. ISF concentre présentement ses activités sur deux importants projets d'infrastructure afin de permettre à cette vision de se réaliser. Le premier est le déploiement de nombreuses bornes d'accès sans fil au réseau Internet (Hotspots) dans des endroits publics (cafés, parcs, etc.). Le second est la création d'une infrastructure de communication haute vitesse toit à toit et ouverte à tous. Nous croyons que toute l'infrastructure nécessaire pour réaliser ces projets peut être développée, financée et maintenue par et pour la communauté."
Exposição "Map of the City" na Galeria articule mostra a cidade como um livro a ser lido, como um organismo vivo em plena transformação pela orgia de signos, objetos, mapas, imagens as mais diversas. A vídeo-instalação faz uma colagem de objetos, mapas, livros, inscrições da anitguidade, fotografias...tentando relacionar sua história, seus signos e símbolos passando ao espectador um patchwork de sensações (com sons e sequências de imagens fixas em duas telas). Essas sensações em muito se assemelham ao que experimentamos no quotidiano. A instalação propõe a imersão e o consumo de imagens como fazemos ao nos locomovermos pelo espaço urbano, ou seja sem prestarmos muita atenção, sem pensar ou interpretar o que nos interpela. O consumo que também nos consome sem nos darmos conta.
Sample da vídeo-instalação Map of the City, Nelson Henricks, articule, Montreal, 2008
Podemos ler no catálogo: "Nelson Henricks recent work Map of the City, is a two-channel video installation that explores the correlations between architecture and words. Initiated during a six-month residency in Rome, this work sees the city as a text environment, as a kind of library that requires both readers and writers. The video piece is a complex blend of text and images where mundane objects take centre stage, grow and multiply, creating small evanescent worlds for the viewer to actively consume. Map of the City is inspired by chapels and cathedrals, which act as three-dimensional, immersive representations of the Bible. Quotes from The Gospel of Thomas and The Bible are interwoven with original text, still photos and electronic soundscapes. The city is seen an accumulation of gestures and desires that outstrip the life of the individual, upholding the view of the city as a living organism."
Sample da vídeo-instalação Map of the City, Nelson Henricks, articule, Montreal, 2008
Outra exposição que visitei na quinta-feira e que faz referência também à cidade é "Utopia's Ghost" no Centre Canadien d'Architecture. A partir de cinco tópicos principais: "road to nowhere", "(In) human Scale", "Babel/Babble", "Islands", e "Worlds-within-worlds (Russian Dolls)", os organizadores propõem re-interpretar o período pós-moderno, que decreta o fim das utopias, e rever seus novos fantasmas em projetos de Robert Venturi, Aldo Rossi, Arata Isozaki, Peter Eisenman, entre outros.
Foto do catálogo da exposição Utopia's Ghost, CAC, Montreal
Podemos ler no site do CAC: "(...) The exhibition title wall features a photomural depicting the dramatic implosion of the high-modernist St. Louis housing project Pruitt-Igoe designed by the architectural firm Leinweber, Yamasaki & Hellmuth in 1950-54. This spectacular and much publicized demolition in 1972 marked not only a public expression of the failure of certain modernist ideologies embodied by the project, but could subsequently be interpreted as a moment of 'birth' for the postmodern period. According to Reinhold Martin, much of the architectural production of the past half-century has been haunted by the ghosts of modernist utopias: 'the projects documented in the exhibition are understood as bearers of a latent discourse that contradicts the very same anti-utopian currents that many of these projects have been thought to represent.'
The exhibition draws attention to an uncanny presence of the modernist notions that had been declared dead. The reproductions and originals representing a selection of projects of the 1970s and '80s take on the character of evidence assembled within five subject groups that trace a utopian afterlife: Babble/Babel, Islands, Roads to Nowhere, (In)human Scale, and Worlds within Worlds. In this reorganisation, the curators challenge the traditional understanding of postmodernism and offer a new framework for approaching the architecture of this period.(...)"
Still da vídeo-instalação Maps of the City, Articule, Montreal
A primeira exposição mostra, em vídeo e sons, o presente e a vida quotidiana na sua trágica dimensão do "aqui e agora". A cidade é um livro a ser lido, um mosaico de imagens a serem consumidas com os olhos. A segunda exposição apresenta uma outra forma de ler a cidade e seu imaginário, lançando o olhar para o futuro. Maquetes, pinturas, desenhos mostram projetos que tentam concretizar novas dimensões da utopia, desse "não-lugar", ou desse "lugar-ideal" presente desde os primórdios da aventura humana..
Não dá para não pensar em Barthes e seu ensaio sobre a cidade. Para Barthes a cidade nao é apenas um texto a ser lido, mas uma língua a ser falada. Sentimos isso quando conhecemos uma cidade (lemos e falamos a sua língua) ou quando somos estrangeiros ou turistas (e não sabemos nem ler nem falar e temos dificuldades para compreender o espaço a nossa volta). Barthes vai desenvolver uma visao erótica do espaco, partindo do raiz da palavra, da dimensao dionísiaca da vida (desejo, excesso, contato, jogo, violência). A cidade, para Barthes, é um lugar de jogo com o outro.
As duas exposições marcam essa dimensão erótica, a busca por essa língua a ser falada ou esse texto a ser lido, seja pela força dos objetos, das imagens e dos sons que nos envolvem (a primeira), seja pelas estruturas imobiliárias que criam o tecido urbano e impregnam o imaginário e nossa visão do futuro.
Nesse fim de semana, sexta e sábado, visitei lugares que desenvolvem projetos com novas mídias.
Oboro
Na sexta fui ao Oboro, centro dedicado a produção e apresentação de arte, práticas contemporâneas e novas mídia, para o lançamento da revista hipertextual, bleuOrange 00.
Lançamento da blueOrange 00
Dança, música e apresentação dos projetos interativos, hipertextuais, vídeo-instalações, etc...que aparecem no primeiro número da revista. O evento foi interessante, mas me pareceu datado. Nào gostei dos projetos apresentados (e isso não foi por causa do meu mau humor ou do meu sarcamo, coisas de que sempre sou acusado ;-)). Sinceramente, me senti no começo dos anos 1990 com toda aquele discussão sobre narratividade, literatura e hipertextos. No entanto, para não dizer que não gostei de nada (embora não tenha achada nada muito relevante ;-))), destaco o trabalho de Grégory Chantonsky, "Sodome@home". A instalação tinha dois telões projetando cenas de "O s 120 dias de Sodoma", de Pasolini e imagens do Flickr, mostrando por um lado a radicalidade do facismo e de outro a "banalidade" do flickr. Não fica claro a escolha, nem a crítica, mas o efeito é interessante. Vejam vídeo abaixo feito lá exibição na sexta.
Video de Grégory Chatonsky, Sodome@home
Digital Chile 08
Entrada da exposição Digital Chile 08
No sábado, visitei a exposição Digital Chile, no SAT, La Société des arts technologiques. Mais atual, mostrando projetos e instalações interativas com sons, imagens de síntese, vídeos, fotografia de vários artistas chilenos como Isabel Aranda, Klaudia Kemper, Alberto Lagos, Roberto Larraguibel, Félix Lazo et Claudio Rivera-Seguel. A pequena, mas consistente exposição desperta interesse no visitante e revela o desenvolvimento da arte eletrônica no Chile. Tentei evitar comparações e fiquei pensando se não seria interessante uma mostra como essa, só que com todos os paíse da América Latina.
Roberto Larraguibel, ?EQUILIBRIUM/EXPLORER?.
Estrutura que produz sons e efeitos visuais a partir do equilíbrio do visitante sobre uma placa.
Desctaco o belo trabalho de Klaudia Kemper, "Body Project". Uma estrutura no centro de uma sala recebe imagens de vídeos em loop de 4 DVDs com fragmentos de corpos (boca, seio, mãos, olhos...). A estrutura composta por esferas parece uma criatura, algo parecido com um organismo. O mesmo parece ir ganhando vida com movimentos e sons da projeção das imagens dos corpos desconstruídos nas imagens. Os sons que ouvimos emanam das imagens dos corpos. Vejam imagens e dois vídeos feitos ontem na exposição.
Exposições interessantes no Musée d'art contemporain de Montréal. Gostei principalmente do trabalho do artista canadense, Geoffrey Farmer, de Vancouver e do britânico Darren Almond.
De Farmer destaco a instalação, apresentada primeiro na Tate Gallery, em Londres, "Nothing Can Separate US (When the Wheel Turns, Why does a Pot Emerge?)" de 2007. Uma sala inteira com uma grande roldana (destaque na foto acima) propondo a idéia de sinos de igrejas e um conjunto de espelhos, quadros, pedaços de jornais, fotos e diversos cacarecos evocando questões relativas às mídias, à comunicação : periódicos, cinema, fotografia, perspectivas, paisagem... Ao entrar na sala ouvimos sons e depois percebemos um post-it com um número de celular. Ao ligar para número indicado, um celular na sala recebe a ligação e aciona uma colher que bate em uma panela como um sino. Em jogo a comunicação humana e condição de conexão permanente: "what can separate us"?
Interessante também a vídeo-instalação em HD (high-definition) de Almond, "In the Between", de 2006, que faz parte da exposição "Une image sonore". Nessa instalação entramos em uma sala com três telões mostrando no centro monges tibetanos (bem atual, portanto) sentados entoando cantos, mantras que se repetem, e nas duas outras telas imagens de trens e de paisagens gravadas a partir dos trens, mostrando movimento e, ao mesmo tempo, repetição. Essa instalação me levou a pensar mais uma vez em como a mobilidade está sempre atrelada à imobilidade. No fundo, uma parece ser condição necessária da outra. A vídeo-instalação mostra assim a tensão entre mobilidade física (transporte, redes de estradas de ferro, paisagens que se desenrolam diante de nós - espetáculo) e, mobilidade imaginária, informacional (os monges imóveis, sentados no centro, entoando mantras minimalistas que dão o ritmo e criam a trilha sonora da instalação). O público, sentado ou em pé, participa dessa tensão: mobile imobile.
"In the 2006 work In the Between, Almond follows the new railway line between Xining,China, and Lhasa, Tibet. Dubbed the Celestial Road, the track crosses the Kunlun Shan mountain range, which forms a natural boundary along the northern edge of the Tibetan plateau. Its construction sparked controversy. According to Chinese authorities, the train is helping to bring Tibet out of its isolation and to encourage its development; for many world observers, however, it poses a threat to Tibetan culture and identity. In a three-screen projection, the 14-minute work juxtaposes images of the train and the landscapes it crosses with scenes shot at the Samye monastery, founded by the Indian guru Padmasambhava, who is credited with authorship of the Bardo Thodol or The Tibetan Book of the Dead. The chanting of the prayers and the sound of the Tibetan horns, drums and bells give the work a remarkable acoustic dimension. "
Na saída compro o livro "Le goût de Montréal", coleção de pequenos textos organizados por Marle-Morgane Le Moël (Mercure de France, 2008) sobre a cidade pela pluma de escritores como Stefan Zweig, Michel Tremblay, Jacques Chartier, entre outros.
Destaco agora esse trecho de Alain Gerber:
"C'est un rare privilège que d'être délivré de son ombre. Je laisse mon ombre à Paris, sous belle guarde, et je déambule rue Sainte Catherine, transparent, incognito à mes propres yeux. Montréal sait ce qui lui reste à faire. (...) Ailleurs, j'éprouve le sentiment, sans doute injustifié (Dieu merci, la passion est injuste), que les choses se trouvent où elles sont par la tyrannie des besoins et le calculs des avantages (...). La realité balance entre deux chimère: ce qui n'est déjà plus et ce qui n'émerge pas encore".