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André Lemos is Associate Professor, Faculty of Communication, Federal University of Bahia, Brazil. PhD in Sociology, Sorbonne (1995), Visiting Scholar University of Alberta and McGill University, Canada (2007-2008). Coordinator of Cybercity Research Group (UFBa/CNPq) and Researcher level 1 at CNPq. Member of Prix Ars Electronica, Wi. Journal of Mobile Media and Canadian Journal of Communication Board. This Carnet is online since March 1st, 2001.


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wSaturday, January 10, 2009


Tudo muda em 2009?



"la chose et l'état ne sont que des instantanés artificiellement pris sur la transition; et cette transition, seule naturellement expérimentée, est la durée même. Elle est mémoire, mais non pas mémoire personnelle, extérieure à ce qu'elle retient, distincte d'un passé dont elle assurerait la conservation; c'est une mémoire intérieure au changement lui-même, mémoire qui prolonge l'avant dans l'après et les empêche d'être de purs instantanés apparaissant et disparaissant dans un présent qui renaîtrait sans cesse."
(Bergson, H., Durée et simultanéité. Paris :PUF, 1968)

O ano começa e nada parece mudar. Olhamos para o lado e tudo está lá, a cidade, os prédios, as pessoas, os vizinhos...Ligamos a TV e são os mesmos programas, as mesmas matérias, as mesmas notícias, os mesmos jornalistas, as mesmas guerras... Olhamos para as propagandas políticas nas ruas e vemos sempre os mesmos (políticos) afirmarem (a mesma coisa); que agora vai, que tudo será diferente. No lado pessoal, prometemos novas ações, posturas, decisões todos os anos, para nós e para os outros, mas temos sempre a sensação de estarmos nos repetindo, repetindo, repetindo... Há aqui frustração, mas também um certo conforto. Nada muda realmente e não perdemos nada se, por exemplo, morremos. Tudo continua na infindável espiral do mesmo. 2009 nos apresenta, como 2008, 2007, 2006...sempre o mesmo?

Mas podemos dizer que, contra esse sentimento conformista ou pessimista, a mudança está sempre aí, no fluxo das coisas, nos segundos que passam, no tempo que nos deixa mais velhos a cada dia, nos pequenos passos que conseguimos dar em direção a novas posturas (ilusão?) diante do mundo, de nós mesmos e dos outros. E se não vemos isso nas grandes coisas (dada essa sensação de que tudo se repete), podemos, se estivermos atentos, tocar e sermos tocados pelas pequenas e mínimas manifestações de abertura ao novo que emergem, sabe-se lá como, dos lentos intervalos que se arrastam dentro do tempo descontínuo que passa. Este tenta sempre apagar os intervalos, chamando para si a atenção, colocando o peso nos grandes momentos fragmentados em que baseamos a nossa existência (amanhã, as 18h, segunda-feira...). O tempo descontínuo, ilusório e frustrante (já que quando chega segunda feira, nada mudou, nem às 18h, nem mesmo amanhã), tenta apagar o que pode emergir das pequenas manifestações ínfimas do que dura, nos intervalos quase imperceptíveis, mas determinantes, que agem como pequenas pérolas inovadoras dentro desse tempo devorador de Cronos.

Talvez a fonte do princípio que principia, que quase nunca vemos, esteja não nos grandes intervalos marcantes das promessas que fazemos todos os anos (vou ser mais feliz, vamos viver em paz, vou mudar completamente a minha maneira de comer e de respirar...) mas na duração, nos momentos que se arrastam entre cada segundo e que nos permitem tocar sutilmente, mas substancialmente, o bem e o belo.



Não devemos nos iludir. O que muda não é visível aos grandes olhos equipados com binóculos, computadores ou telescópios, e nem está nos grandes projetos do amanhã (que nunca chegam). O que muda nunca chegará abruptamente pelo tempo do relógio, do calendário ou da agenda, mas na lenta passagem entre os segundos de todos os minutos e entre os minutos de todas as horas, na duração que se arrasta entre um instante e outro, no fluir dos pequenos instantes que crescem e se dissolvem aqui e agora. Só podemos acreditar na mudança de olhos fechados.

Como diz Bergson, a duração é essa multiplicidade de instantes (presa, na era moderna, às grandes marcações temporais que insistimos em usar para organizar a nossa vida em sociedade). A duração não é o "um" ou o "múltiplo", não é este momento (despedaçado), nem um conjunto destes inúmeros momentos retalhados, separados e "linkados" artificialmente, mas a variação (multiplicidade) do um e do múltiplo. Só aqui teríamos o que Bergson chama de um tempo fundamental, uma sucessão sem separação que pode apontar para um futuro (uma mudança?) construindo-se em um emaranhado de instantes sem a artificial divisibilidade das horas que começam aqui e acabam acolá.

Para Bergson há duas multiplicidades: a "numérica", que implica o espaço (e o tempo), e a "qualitativa", que implica a duração (e a extensão). Quanto estamos imersos apenas na dimensão numérica, a sensação é de que nada muda realmente, só, talvez, artificialmente. Quando vivemos a duração percebemos pequenas e marcantes diferenças que parecem mudar (à nossa revelia) cada instante, se apresentando como uma "nova" novidade. Se for assim, não vamos querer mais morrer pois sentimos que perderemos coisas (novas?) a cada instante. 2009 só mudará em relação a 2008 se esquecermos essa marcação numérica e mergulharmos nos instantes infinitos da duração, se nos apegamos a essa sequência de nadas, a esses pequenos momentos "qualitativos" fora do rigor "numérico" das horas e dos grandes projetos.



Se for assim (mas não há garantias!) dissolve-se até a própria ânsia pela mudança já que, diferente do que mostramos no primeiro parágrafo, tudo muda o tempo todo. Um futuro poderia se preparar diluindo-se nas pequenas diferenças entre o passado do presente, o presente do presente e esse agora futuro do presente. Mas o tempo só existe nesse presente: passado, presente e futuro. Nessa duração, de forma sutil e imperceptível (por isso na maioria das vezes temos a impressão de que nada muda) o que muda pode se preparar. Mas não há mesmo nenhuma garantia. É nesse tempo que se deve "matar" (a duração despercebida engolida pelas dimensões descontínuas da existência quotidiana - 13h aula, 17h, ginástica, 20h jantar...) que o devir se prepara (memórias, pensamentos e sentimentos que emergem quando não esperamos, entre um tempo vazio e outro, no ônibus, dormindo, andando...). Só na duração, essa multiplicidade qualitativa, e não no tempo descontínuo, numérico, das temporalidades fragmentadas do quotidiano, podemos perceber o que pode efetivamente fazer uma diferença, mudar.

Aparentemente paradoxal, é na duração que tudo pode mudar. A duração não é a decomposição, mas a possibilidade da emergência do novo (mais uma vez Bergson, e ouça Deleuze explicando abaixo). Mergulhados nesse lento fluir do tempo, a pergunta sobre o que muda em 2009 se dissolve. No fundo, não existe isso que chamamos de "2009" (apenas uma ilusão numérica), mas a elástica qualidade da duração. Se não for assim, se não abandonarmos esse "2009", viveremos para sempre no repetitivo retorno do mesmo, esperando um amanhã que nunca chega.





Gilles Deleuze falando sobre "La durée"

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posted by André Lemos at 5:08 AM - Permalink - Postar um Comentário


wTuesday, December 09, 2008


Locative Control

Estamos finalizando a disciplina Mídia Locativa no PPGCCC, e a discussão desta semana será sobre controle e vigilância. Mídias de localização e do movimento, como escrevia ontem, as mídias locativas são meios de controle, de monitoramento e também de vigilância. É sempre bom reler os textos e se tivesse tempo (um dia de 80 horas e uma vida de 500 anos) poderia e adoraria me dar o prazer da releitura. Fiz isso para discutir com alunos textos que já havia lido. Agora reli o "Post-scriptum sobre as sociedades de controle" de Gilles Deleuze (1990) e gostaria de destacar duas passagens que remetem diretamente para a questão das mídias locativas e dos territórios informacionais. No cardápio ainda discussão sobre RFID, mobile social networking, ambientes pervasivos...


Entrada de um condomínio em Salvador.

Sobre mídias locativas, vejam a relação direta entre localização, dispositivos digitais e mobilidade:

"Não há necessidade de ficção científica para conceber um mecanismo de controle que forneça a cada instante a posição de um elemento em meio aberto, animal numa reserva, homem numa empresa (coleira eletrônica). Félix Guattari imaginava uma cidade onde cada um pudesse deixar seu apartamento, sua rua, seu bairro, graças ao seu cartão eletrônico, que removeria qualquer barreira; mas, do mesmo modo, o cartão poderia ser rejeitado tal dia, ou entre tais horas; o que conta não é a barreira, mas o computador que localiza a posição de cada um, lícita ou ilícita, e opera uma modulação universal"

Sobre territórios informacionais (controle informacional na interface das dimensões físicas e informacionais dos lugares), vejam como a "cifra" (a senha, o código de controle) evidencia os novos territórios, perfis construídos a partir de cruzamento de bancos de dados. O lugar torna-se uma fusão de dimensões físicas e de bancos de dados. Vejam:

"Nas sociedades de controle, ao contrário, o essencial não é mais uma assinatura e nem um número, mas uma cifra: a cifra é uma senha, ao passo que as sociedades disciplinares são reguladas por palavras de ordem (tanto do ponto de vista da integração quanto da resistência). A linguagem numérica do controle é feita de cifras, que marcam o acesso à informação, ou a rejeição. Não se está mais diante do par massa-indivíduo. Os indivíduos tornaram-se 'dividuais', divisíveis, e as massas tornaram-se amostras, dados, mercados ou 'bancos'."

Passando dos "banco de dados" aos Bancos:


Equipamento de controle "modular" de senhas, o "Multisenha".

Interessante ver como, passando da moldagem (sociedade disciplinar) à modulação (sociedade do controle), os bancos estão não só criando senhas de acesso (para aferir maior controle sobre a assinatura e o número de identificação - estes para Deleuze, instrumentos da sociedade disciplinar), mas senhas de acesso moduláveis (sociedade do controle), geradas por um pequeno dispositivo ("multisenha") que deve ficar com o usuário, produzindo uma senha a cada momento. Cria-se uma hiper-modulação, uma hiper-mobilidade e também um melhor controle.

O Unibanco (veja aqui um vídeo demonstrativo) já adotou o equipamento e começou a distribuir aos correntistas. Quem não quiser, vai poder movimentar apenas pequeníssimas quantidades de dinheiro. Ou seja, é praticamente compulsório. Notem que essa estratégia aponta para um controle que cresce e se expande ("os anéis da serpente são complicados", dizia Deleuze) através de uma maior mobilidade do usuário (já que o dispositivo é como um chaveiro) e de uma maior mobilidade informacional (já que a cada uso uma nova senha é gerada). Mas, na realidade, essa modulação de senhas é uma estratégia usada pelos bancos para retirar a sua responsabilidade sobre roubo de senhas ou outros problemas eletrônicos que o correntista venha a ter. Agora a responsabilidade é só dele. A culpa ou será do provedor de acesso, como quer a lei Azeredo, ou sua mesmo, já que o banco transferiu para o dispositivo todo o controle sobre o acesso à conta eletrônica. Aparentemente você controla melhor sua conta, já que as senhas são múltiplas e em mobilidade mas, na realidade, é o sistema que te controla melhor, dando ao mesmo tempo a impressão de uma maior mobilidade e liberdade.

As mídias locativas, onde localização e mobilidade significam possibilidades de produção de sentido no espaço e nos lugares, são também instrumentos de controle, monitoramento e vigilância dos lugares, dos espaços e dos indivíduos, agora enredados nos bancos de dados moduláveis, fluídos, inteligentes e onipresentes. Não esqueçamos que essas tecnologias, principalmente o GPS, têm origem militar.

Como alerta Deleuze:

"diante das formas de controle incessante em meio aberto, é possível que os mais rígidos sistemas de clausura nos pareçam pertencer a um passado delicioso e agradável".

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posted by André Lemos at 3:25 PM - Permalink - Postar um Comentário