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404nOtF0und ANO 8, VOL 1, N. 67· maio-junho/2008 ISSN 1676-2916 http://www.facom.ufba.br/ciberpesquisa/404nOtF0und Editor: André Lemos A Tropa Livre – os Efeitos da Distribuição Ilegal
do Filme “Tropa de Elite” em seu Desempenho nos Cinemas Brasileiros O crescente avanço tecnológico na área das redes
de computação, comunicação e informação
tornou o mundo, psico-geograficamente, menor: em realidade, o contato
geográfico, outrora distante entre pessoas, tradições
e culturas, tornou-se mais próximo. Mesmo que utilizando-se de
uma representação, o virtual é hoje uma maneira prática
e econômica de comunicação. O conjunto de questões que formam a intersecção
desses dois avanços da tecnologia lançam as bases de uma
nova forma de se pensar o relacionamento entre pessoas e grupos: o compartilhamento
no ciberespaço. Os dados transitando de uma máquina a outra
é, em verdade, informação que viaja, de pessoas para
pessoas, de grupos para grupos. Uma relação é então
construída entre afinidades de áreas específicas,
gerando cada vez mais compartilhamento e, em consequência, informação. Porém, mesmo com as identificáveis qualidades que o compartilhamento
no ciberespaço provoca, algumas de suas características
causam espanto em alguns, gerando respostas negativas a ele. A principal
reação tem haver com a perda das “indústrias
culturais” sobre seu domínio na reprodução
e “multiplicação” de seus “produtos culturais”. Segundo Pierre Lévy, “uma das idéias mais errôneas,
e talvez a que tem vida mais longa, representa a substituição
pura e simples do antigo pelo novo, do natural pelo técnico ou
do virtual pelo real”. Esse receio da substituição
faz com que a indústria cultural sinta-se roubada pelo compartilhamento
de seus produtos, levando-a a tomar medidas extremas como processos movidos
a internautas que fazem downloads de música ou filmes. Resta pautarmos a atitude da indústria na seguinte questão:
o compartilhamento sugere novas maneiras de socialização
de informações. Não haveria como os produtores de
cultura, com devidos estudos e pesquisas, apurar novas formas de se utilizar
dessa característica do “programa da cibercultura”
a “vender” suas obras? O presente artigo utiliza como exemplo o filme “Tropa de Elite”,
nacionalmente conhecido por ter sido o mais “pirateado” da
história da cinematografia nacional. Comparar-se-á dados
coletados pela agência de consultoria Filmes B, que gentilmente
cedeu informações acerca da arrecadação, público
e mais detalhes de filmes nacionais e internacionais que estrearam no
mesmo ano que “Tropa de Elite”. Ao final, confrontando estes
dados com a polêmica acerca da distribuição ilegal
do filme, surge questionamentos colocados como algo ao qual a sociedade
e os produtores podem refletir acerca do compartilhamento de obras protegidas
por direito autoral. 2. - Da Produção ao Camelô - e Cinema “Tropa de Elite” foi dirigido pelo cineasta José Padilha,
e conta a história da vida de um comandante do BOPE – RJ
(Batalhão de Operações Policiais Especiais –
Rio de Janeiro) que deve procurar um substituto para seu posto. O filme
trata sobre muitos assuntos polêmicos, como tráfico e uso
de drogas, tortura, ONG's e mais. Inicialmente, estava previsto que sua estréia nos cinemas nacionais
se daria por volta do início de novembro. Entretanto, o primeiro
foco de pirataria deu-se na cidade do Rio de Janeiro, ainda em agosto.
Poucos dias depois, já podia-se adquirir o DVD pirata de “Tropa
de Elite” em cidades como São Paulo, Brasília, Belo
Horizonte, Salvador, Manaus e Porto Alegre. Sem contar os diversos sites
onde era possível a qualquer pessoa fazer o download da obra. Por conta disso, a estréia do filme acabou sendo antecipada para
o dia 05 de outubro em São Paulo e Rio de Janeiro, e dia 12 de
outubro nacionalmente. Segundo uma pesquisa do Datafolha, divulgada no
dia 6 de outubro, cerca de 1,5 milhão de pessoas, apenas em São
Paulo, já haviam assistido o filme antes da estréia. A indústria, então, esperou um possível fracasso
nas bilheterias. Como poderia um filme, já amplamente conhecido
e assistido por uma grande parcela da população, vingar
nos cinemas? Segundo Lessing, existem quatro tipos de usuários de material
“pirata”: A) aqueles que utilizam-no para substituir o original;
B) aqueles que utilizam para conhecer – ter uma prévia -
da obra; C) aqueles que buscam material ainda sobre copyright, porém
não mais disponível no mercado; D) aqueles que querem te
acesso a conteúdo disponibilizado como domínio público. Para o filme “Tropa de Elite”, interessa-nos apenas os usuários
do tipo A e B. Dos milhões de pessoas que assistiram a cópia
ilegal da obra, certamente, muitas estão alocadas na categoria
A. Porém, deve-se lembrar que estas pessoas não iriam ao
cinema, de qualquer forma. O número médio de espectadores
das salas de vídeo no Brasil não é dos maiores no
mundo. Logo, qualquer menção a “perdas” que a indústria
cinematográfica venha a trazer a mídia é, em verdade,
equivocada. Para pessoas do tipo A, ir ao cinema não é algo
de sua cultura, ou de seu gosto, seja por questões socio-econômicas,
seja simplesmente por vontade. Já usuários do tipo B existem
e, certamente, formaram uma quantidade substancial no número de
pessoas que assistiram ilegalmente o filme. Na Tabela 1, onde encontram-se
dados referentes ao desempenho do filme no cinema, vemos o número
de espectadores na estréia, o público total no ano de 2007
e a arrecadação total no ano: Tabela 1: Desempenho do filme “Tropa de Elite”nos cinemas
brasileiros em 2007.
Para além dessa questão, “Tropa de Elite” foi
o filme mais assistido nos cinemas no ano de 2007. A Tabela 2 mostra os
cinco filmes nacionais mais assistidos em 2007, com seus respectivos números
de cópias, salas, público total e arrecadação
total: Tabela 2: Cinco filmes nacionais mais assistidos em 2007. Fazendo a mesma comparação anterior, agora com filmes nacionais
e internacionais, “Tropa de Elite” ocupa a 7 posição
em arrecadação e público total (Tabela 3): Tabela 3: Sete filmes mais assistidos em 2007. Convém lembrar que, dos sete filmes mais assistidos em 2007, os
seis primeiros são mega-produções internacionais,
onde empresas do entretenimento investem milhões em recursos exclusivamente
para propaganda e publicidade – os assim chamados blockbusters.
“Tropa de Elite” teve um fraco investimento em marketing.
Não houve comerciais televisionados; o “principal”
veículo de divulgação era o site oficial na web. 3. - Conclusão Para Pierre Lévy, “a perspectiva da substituição negligencia a análise das práticas sociais efetivas e parece cega à abertura de novos planos de existência, que são acrescentados aos dispositivos anteriores ou os complexificam em vez de substituí-los”. Ao contrário do que pode indicar o senso comum – e a indústria da mídia se utiliza desse discurso – a distribuição ilegal do filme “Tropa de Elite” não afetou seu desempenho de maneira negativa. Do contrário, supõe-se que, de alguma forma, ela pode ter beneficiado a obra, segundo seu desempenho frente aos demais filmes, nacionais e internacionais, exibidos na mesma época. E, na contramão dos filmes internacionais mais assistidos, e até mesmo de alguns nacionais, “Tropa de Elite” não teve um grande investimento em marketing. Pelo menos, não da maneira convencional.
4. - Agradecimentos Agradeço humildemente pela gentileza da empresa Filme B, que permitiu-me
utilizar dados de seu banco de informações acerca do desempenho
dos filmes aqui expostos. Certamente, sem estes dados, ficaria impossibilitado
de demostrar e defender tal tese.Obrigado. 5. - Bibliografia LÉVY, Pierre; Cibercultura, Editora 34, São Paulo –
Brasil, 1999;
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