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404nOtF0und    ANO 8, VOL 1, N. 67· maio-junho/2008

ISSN 1676-2916
Publicação do Ciberpesquisa - Centro de Estudos e Pesquisas em Cibercultura

http://www.facom.ufba.br/ciberpesquisa/404nOtF0und

Editor: André Lemos
Editor Assistente: Cláudio Manoel


A Tropa Livre – os Efeitos da Distribuição Ilegal do Filme “Tropa de Elite” em seu Desempenho nos Cinemas Brasileiros

Filipe de Oliveira Saraiva1

Resumo: O presente artigo objetiva fazer uma reflexão sobre a relação entre os fatos ocorridos com o filme “Tropa de Elite” - conhecido por ter sido o mais “pirateado” da indústria cinematográfica nacional – e seu desempenho em número de espectadores e arrecadação nos cinemas brasileiros. Comparando estes mesmos indicadores aos de outros filmes nacionais e internacionais que estiveram em cartaz na mesma época, levanta-se ponderações acerca dos efeitos da distribuição ilegal do filme em seus indicadores, pautando a argumentação nas teorias sobre Cultura Livre e Cibercultura.

Palavras-chave: Cibercultura, Cultura Livre, Tropa de Elite, Cinema Brasileiro, Pirataria.

1. – Introdução

O crescente avanço tecnológico na área das redes de computação, comunicação e informação tornou o mundo, psico-geograficamente, menor: em realidade, o contato geográfico, outrora distante entre pessoas, tradições e culturas, tornou-se mais próximo. Mesmo que utilizando-se de uma representação, o virtual é hoje uma maneira prática e econômica de comunicação.
Outros avanços que acontecem nos laboratórios de desenvolvimento informáticos e que chega a sociedade é a facilidade em se reproduzir mídias de diferentes tipos (filmes, música, texto) em diferentes aparelhos, bem como a facilidade em se adaptar “produtos” virtuais para contextos diferentes (por exemplo, um texto na web publicado em um jornal convencional).

O conjunto de questões que formam a intersecção desses dois avanços da tecnologia lançam as bases de uma nova forma de se pensar o relacionamento entre pessoas e grupos: o compartilhamento no ciberespaço. Os dados transitando de uma máquina a outra é, em verdade, informação que viaja, de pessoas para pessoas, de grupos para grupos. Uma relação é então construída entre afinidades de áreas específicas, gerando cada vez mais compartilhamento e, em consequência, informação.

Porém, mesmo com as identificáveis qualidades que o compartilhamento no ciberespaço provoca, algumas de suas características causam espanto em alguns, gerando respostas negativas a ele. A principal reação tem haver com a perda das “indústrias culturais” sobre seu domínio na reprodução e “multiplicação” de seus “produtos culturais”.

Segundo Pierre Lévy, “uma das idéias mais errôneas, e talvez a que tem vida mais longa, representa a substituição pura e simples do antigo pelo novo, do natural pelo técnico ou do virtual pelo real”. Esse receio da substituição faz com que a indústria cultural sinta-se roubada pelo compartilhamento de seus produtos, levando-a a tomar medidas extremas como processos movidos a internautas que fazem downloads de música ou filmes.

Resta pautarmos a atitude da indústria na seguinte questão: o compartilhamento sugere novas maneiras de socialização de informações. Não haveria como os produtores de cultura, com devidos estudos e pesquisas, apurar novas formas de se utilizar dessa característica do “programa da cibercultura” a “vender” suas obras?

O presente artigo utiliza como exemplo o filme “Tropa de Elite”, nacionalmente conhecido por ter sido o mais “pirateado” da história da cinematografia nacional. Comparar-se-á dados coletados pela agência de consultoria Filmes B, que gentilmente cedeu informações acerca da arrecadação, público e mais detalhes de filmes nacionais e internacionais que estrearam no mesmo ano que “Tropa de Elite”. Ao final, confrontando estes dados com a polêmica acerca da distribuição ilegal do filme, surge questionamentos colocados como algo ao qual a sociedade e os produtores podem refletir acerca do compartilhamento de obras protegidas por direito autoral.

2. - Da Produção ao Camelô - e Cinema

“Tropa de Elite” foi dirigido pelo cineasta José Padilha, e conta a história da vida de um comandante do BOPE – RJ (Batalhão de Operações Policiais Especiais – Rio de Janeiro) que deve procurar um substituto para seu posto. O filme trata sobre muitos assuntos polêmicos, como tráfico e uso de drogas, tortura, ONG's e mais.

Inicialmente, estava previsto que sua estréia nos cinemas nacionais se daria por volta do início de novembro. Entretanto, o primeiro foco de pirataria deu-se na cidade do Rio de Janeiro, ainda em agosto. Poucos dias depois, já podia-se adquirir o DVD pirata de “Tropa de Elite” em cidades como São Paulo, Brasília, Belo Horizonte, Salvador, Manaus e Porto Alegre. Sem contar os diversos sites onde era possível a qualquer pessoa fazer o download da obra.

Por conta disso, a estréia do filme acabou sendo antecipada para o dia 05 de outubro em São Paulo e Rio de Janeiro, e dia 12 de outubro nacionalmente. Segundo uma pesquisa do Datafolha, divulgada no dia 6 de outubro, cerca de 1,5 milhão de pessoas, apenas em São Paulo, já haviam assistido o filme antes da estréia.

A indústria, então, esperou um possível fracasso nas bilheterias. Como poderia um filme, já amplamente conhecido e assistido por uma grande parcela da população, vingar nos cinemas?

Segundo Lessing, existem quatro tipos de usuários de material “pirata”: A) aqueles que utilizam-no para substituir o original; B) aqueles que utilizam para conhecer – ter uma prévia - da obra; C) aqueles que buscam material ainda sobre copyright, porém não mais disponível no mercado; D) aqueles que querem te acesso a conteúdo disponibilizado como domínio público.

Para o filme “Tropa de Elite”, interessa-nos apenas os usuários do tipo A e B. Dos milhões de pessoas que assistiram a cópia ilegal da obra, certamente, muitas estão alocadas na categoria A. Porém, deve-se lembrar que estas pessoas não iriam ao cinema, de qualquer forma. O número médio de espectadores das salas de vídeo no Brasil não é dos maiores no mundo.

Logo, qualquer menção a “perdas” que a indústria cinematográfica venha a trazer a mídia é, em verdade, equivocada. Para pessoas do tipo A, ir ao cinema não é algo de sua cultura, ou de seu gosto, seja por questões socio-econômicas, seja simplesmente por vontade. Já usuários do tipo B existem e, certamente, formaram uma quantidade substancial no número de pessoas que assistiram ilegalmente o filme. Na Tabela 1, onde encontram-se dados referentes ao desempenho do filme no cinema, vemos o número de espectadores na estréia, o público total no ano de 2007 e a arrecadação total no ano:

Tabela 1: Desempenho do filme “Tropa de Elite”nos cinemas brasileiros em 2007.
Fonte: Filme B


No total daqueles que assistiram ao filme existem tanto usuários do tipo B como pessoas que não assistiram a cópia ilegal. Seguindo as teorias sobre Cultura Livre, é correto considerar que o número expressivo do público deve-se, em parte, à disponibilização anterior da obra.

Para além dessa questão, “Tropa de Elite” foi o filme mais assistido nos cinemas no ano de 2007. A Tabela 2 mostra os cinco filmes nacionais mais assistidos em 2007, com seus respectivos números de cópias, salas, público total e arrecadação total:

Tabela 2: Cinco filmes nacionais mais assistidos em 2007.
Fonte: Filme B

Fazendo a mesma comparação anterior, agora com filmes nacionais e internacionais, “Tropa de Elite” ocupa a 7 posição em arrecadação e público total (Tabela 3):

Tabela 3: Sete filmes mais assistidos em 2007.
Fonte: Filme B

Convém lembrar que, dos sete filmes mais assistidos em 2007, os seis primeiros são mega-produções internacionais, onde empresas do entretenimento investem milhões em recursos exclusivamente para propaganda e publicidade – os assim chamados blockbusters. “Tropa de Elite” teve um fraco investimento em marketing. Não houve comerciais televisionados; o “principal” veículo de divulgação era o site oficial na web.

3. - Conclusão

Para Pierre Lévy, “a perspectiva da substituição negligencia a análise das práticas sociais efetivas e parece cega à abertura de novos planos de existência, que são acrescentados aos dispositivos anteriores ou os complexificam em vez de substituí-los”.

Ao contrário do que pode indicar o senso comum – e a indústria da mídia se utiliza desse discurso – a distribuição ilegal do filme “Tropa de Elite” não afetou seu desempenho de maneira negativa. Do contrário, supõe-se que, de alguma forma, ela pode ter beneficiado a obra, segundo seu desempenho frente aos demais filmes, nacionais e internacionais, exibidos na mesma época. E, na contramão dos filmes internacionais mais assistidos, e até mesmo de alguns nacionais, “Tropa de Elite” não teve um grande investimento em marketing. Pelo menos, não da maneira convencional.


No presente estudo, o suporte necessário para contrariar o discurso anti-”pirataria” foi desfeito pelos dados existentes, coletados empiricamente. Seguramente, “Tropa de Elite” não teve esse desempenho apenas por conta da distribuição ilegal – seus produtores, criadores e todos os que trabalharam despenderam esforços consideráveis para se fazer uma obra com várias qualidades.
É necessário analisar corretamente o discurso da mídia acerca da “pirataria”. A utilização do senso comum pode destruir formas novas – e, acredita-se, algumas até não imaginadas – de distribuição e marketing. A emergência do ciberespaço cria caminhos e ligações, novas maneiras de relações que, pelo medo da substituição, as antigas possuidoras do poder vêem seu status quo sendo, pouco a pouco, minado – apenas por lutarem contra o desenvolvimento técnico e cultural, ao invés de se adaptarem.
Trabalhos que visem abordar estas questões são de suma importância para o esclarecimento, análise e formação de opinião acerca da influência da cibercultura na distribuição de cultura e informação neste novo cenário que nos cerca. O temor não pode vencer o surgimento de novas relações, pautadas na descentralização da mídia.

4. - Agradecimentos

Agradeço humildemente pela gentileza da empresa Filme B, que permitiu-me utilizar dados de seu banco de informações acerca do desempenho dos filmes aqui expostos. Certamente, sem estes dados, ficaria impossibilitado de demostrar e defender tal tese.Obrigado.

5. - Bibliografia

LÉVY, Pierre; Cibercultura, Editora 34, São Paulo – Brasil, 1999;
LESSING, Lawrence; Cultura Livre, disponível em www.dominiopublico.gov.br;
BENJAMIN, Walter; A Obra de Arte na Época de sua Reprodutividade Técnica, França, 1955;
NEPOMUCENO, Carlos; CAVALCANTI, Marcos; O Conhecimento em Rede, Editora Elsevier, São Paulo – Brasil, 2007;
LEMOS, Ronaldo; Direito, Tecnologia e Cultura, disponível em http://www.overmundo.com.br/banco/livro-direito-tecnologia-e-cultura-ronaldo-lemos;
CABRAL, Plínio; Direito Autoral – Dúvidas e Controvérsias, Editora Harbra, São Paulo – Brasil, 2000;
Informações e reportagens:
Folha Online; Pirataria do filme "Tropa de Elite" preocupa governo - http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u323878.shtml, 29/08/2007;
Omelete; Tropa de Elite estréia com sucesso nos cinemas - http://www.omelete.com.br/cine/100008479/Tropa_de_Elite_estreia_com_sucesso_nos_cinemas.aspx, 08/10/2007;
G1; Após estréia em todo o Brasil, “Tropa de elite” lidera bilheterias - http://g1.globo.com/Noticias/Cinema/0,,MUL150875-7086,00-APOS+ESTREIA+EM+TODO+O+BRASIL+TROPA+DE+ELITE+LIDERA+BILHETERIAS.html, 16/10/2007;
Omelete; Tropa de Elite já é o filme brasileiro mais visto neste ano nos cinemas - http://www.omelete.com.br/cine/100009374/Tropa_de_Elite_ja_e_o_filme_brasileiro_mais_visto_neste_ano_nos_cinemas.aspx, 22/11/2007;
Filme B - www.filmeb.com.br;
Wikipedia - http://pt.wikipedia.org/wiki/Tropa_de_Elite_%28filme%29.

 

NOTE
1 – Graduando em Ciências da Computação pela Universidade Federal do Piauí; desenvolvedor de software livre, pesquisador em Inteligência Artificial e Cibercultura.