|
|
|||
|
404nOtF0und ANO 7, VOL 1, N. 60· março-abril/2007 ISSN 1676-2916 http://www.facom.ufba.br/ciberpesquisa/404nOtF0und Editor: André Lemos Cibercultura: significados e negociação nas fronteiras
culturais contemporâneas A constituição do que chamamos de pós-modernidade
apresenta um modo ambíguo de se relacionar com a vida contemporânea.
Na liminaridade entre o global e o local e entre a cultura nacional e
as novas possibilidades dos territórios fronteiriços. Novos
símbolos, códigos, imagens e representações
surgem através da negociação entre dois mundos: o
cotidiano a qual estamos ligados e o virtual na qual nos conectamos. Dessa
forma, permite o surgimento de um novo modo de significar e produzir a
vida humana. A fragmentação das identidades nacionais em
paisagens culturais engloba algumas das mais clássicas categorias
sociológicas e demostra uma maturação tecida na sua
própria (in)visibilidade. Os atuais eventos são conseqüência
de uma situação insustentável que vinha perdurando
por um longo tempo, assim como, o anuncio de mudanças que colocam
atores e agências em um cenário mais amplo. Para que possamos nos aproximar de uma possível compreensão
acerca do papel da tecnologia na vida social e a relação
que cultuamos com os conjuntos de técnicas, não é
suficiente a investigação dos seus contínuos avanços,
mas, também, as causas que definem uma certa tendência na
produção e manipulação dos modelos tecnológicos.
A história das sociedades e das técnicas em muitos momentos
se confundem. Simplesmente, não podemos determinar qual ou quem
está (re)definindo a estrutura social. Issoocorre, principalmente,
pela dificuldade de separarmos produto/produtor, subjetividade/objetividade,
realidade/virtualidade na constituição do que vivemos ou
presenciamos. Não podemos esquecer que elaboramos estratégias com as
mais variadas técnicas e que reconstruímos periodicamente
as formas milenares de subsistir sobre o planeta. É importante
deixar claro que a história das sociedades e das técnicas
caminham lado a lado. Eu penso que elas são indissociáveis
ao produzirem juntas a existência humana. O que mais poderia querer
dizer Milton Santos (2001), quando afirma que em cada época existe
um conjunto de técnicas que define o grau de desenvolvimento da
sociedade. Na história existem diversos exemplos de conjuntos de
técnica associados a algum tipo de avanço social. É importante também esclarecer que reconheço a revolução
das novas tecnologias, apenas não a entendo como a única
possível ou a única ocorrida. A historia guarda inúmeros
exemplos de revoluções surgidas com o aparecimento de algum
novo conjunto de técnicas. O fogo na pré-história,
a agricultura na história antiga, a imprensa medieval, a biologia
renascentista, as modernas técnicas de navegação
e as tecnologias computacionais em nossa era. Somente quando olhamos o
sucessivo progresso das técnicas, é que podemos perceber
a perenidade tecnológica antes que a modernidade instituísse
uma necessidade voraz de intervir na realidade e através de avanços
cada vez maiores nos conjuntos de técnica. Se pensarmos em termos arqueológicos, vamos nos deparar com a
origem do uso das técnicas apenas com o gênero Homo Habilis.
O primeiro dos Homo Sapiens lidava com tecnologias expressas em uma pequena
variedade de ferramentas e que eram feitas com poucas matérias
primas, principalmente, extraídas de arvores e rochas. No entanto,
esse singular conjunto de técnicas trouxe mudanças importantes
para o deslocamento da natureza do homem. Não resta dúvida
da importância do fogo na mudança da produção
da vida concreta e simbólica dos hominídeos. Devemos ao
fogo a possibilidade de dormir com segurança nas noites sempre
rondadas por predadores a espreita, assim como, a produção
de calor para enfrentar as temperaturas mais baixas, sem contar, as mudanças
nos hábitos alimentares. O mesmo pode ser dito em relação
a agricultura na formação do que é hoje o modo de
viver das sociedades modernas. As primeiras aglomerações foram iniciadas em torno da produção
agrícola, quando os grupos passaram a satisfazer coletivamente
as necessidades de seus membros. A foice e a enxada fazem parte de um
conjunto de técnicas responsável pela fixação
do homem, surgimento das vilas e consolidação do processo
civilizacional. Sem a produção agrícola, os grupos
viviam como nômades, vagando em busca de alimentos. Esse conjunto
representa uma revolução para a sua época e uma força
suficiente para modificar a realidade de incontáveis grupos sobre
o globo. A historiografia ressalta o Egito como berço dessa prática
milenar, mas, falta (re)construirmos a história dos demais continentes.
Uma delas é a do continente americano. Sabemos, principalmente,
pelos relatos dos conquistadores, que existiam muitos grupos que utilizavam
a agricultura no continente. A produção agrícola
era apenas um dos muitos saberes dos ameríndios e que ainda dominavam
a astronomia, a arquitetura, as artes etc. É uma história
que precisa ser contada, assim como, de inúmeros outros grupos
que viviam apartados da idéia de um possível berço
da cultura civilizacional. Por hora, basta assinalarmos que a história
dos diferentes conjuntos de técnicas e as mudanças que provocam
em cada cultura, é insuficiente para fecharmos muitas questões
que se encontram abertas. De maneiras diferentes, dependendo das necessidades e conforme o ecossistema,
nos especializamos em construir determinadas técnicas adequadas
ao nosso modo de vida. O modo de viver ocidental domina o centro da construção
da realidade há pouco tempo. Antes, outras visões diferenciadas
de mundo haviam sido elaboradas. Basta olharmos para o Oriente e percebemos
que as realidades convivem simultaneamente. Existe horas que elas se aproximam
e de modo mais corrente se afastam. Durkheim ressaltou na sua visão
de sociedade essa força que tanto pode exercer uma atração,
como o seu oposto. Os laços entre as sociedades mudam para se ajustar
ao mundo interior e exterior. Não existe sociedade definitivamente parada. Todas elas estão
mudando ao seu tempo. É um processo que apresenta semelhanças
que o universo trava com a lei da entropia e que leva todas as coisas
a um nível de energia incapaz de gerar trabalho. Apenas quando
não há mais energia para produzir a vida, é que uma
sociedade poderá estar parada no tempo. Quando isso acontecer,
não restará mais nenhum membro para dar continuidade ao
que existe até aquele momento. Por isso, continuamente renovamos
nossos estoques e cuidamos para que os frutos continuem sendo gerados.
Estamos historicamente fazendo diferentes usos das técnicas para
produzir a vida sobre o planeta. Contudo, na contemporaneidade existe
uma compulsão pela tecnologia que parece não ter existido
em nenhuma outra época. Nenhuma outra dependeu tanto da renovação
das técnicas como a modernidade. A vocação contemporânea,
na produção de aparatos tecnológicos, é uma
herança marcante das aglomerações modernas. Não
é possível falar da modernidade sem considerarmos a presença
decisiva das técnicas e da ciência. Aliás, elas são
as grandes aliadas na construção do moderno e no que possibilitou
as inúmeras transformações ao longo dos últimos
séculos. Anterior a 1492, a Europa ocupava uma posição
periférica no sistema ético, econômico, social e cultural
do planeta. Segundo Dussel (2002), apenas depois da conquista das Américas,
quando a Europa anexa o continente as suas posses, é que os países
europeus passaram a ter uma vantagem competitiva perante os demais. A
constituição do sistema-mundo se torna possível apenas
com o aprimoramento das técnicas de navegação (caravela,
bússola, pólvora etc) e somente a partir desse momento que
os ideais e os valores greco-romanos passam a ser universais. Não
podemos esquecer que em nome da sua cultura, o Ocidente usou e abusou
das técnicas de violência. A dominação sob
a América e a escravização africana foi feita com
o uso sistemático da violência física, moral, econômica,
social, política e cultural. Podemos dizer que são os primeiros
a fazerem uso do conhecimento social para produzir guerras, fome e descaso
com a vida no planeta e de incontáveis populações. Um conjunto de técnicas não existe de modo aleatório
e não surge ao acaso. Investigar a produção das tecnologias
exige um reconhecimento que vai além do entendimento do progresso
sucessivo das técnicas. Trata-se de uma investigação
que considere a complexidade dos hominídeos nas suas múltiplas
dimensões. Devemos considerar os medos, os desejos, os sonhos,
enfim, tudo aquilo que faz uma sociedade ou uma época produzir
determinadas tecnologias. É importante também compreender
as causas que definem a sua aplicabilidade entre aqueles que as manipulam.
As técnicas estão carregadas da subjetividade humana e não
é possível pensar o atual conjunto de técnicas sem
estar ciente de que é resultado de uma determinada forma de pensar,
ou seja, uma lógica particular. Outras lógicas constróem
de maneiras diferentes as técnicas que auxiliam na atividade de
produzir a vida em sociedade. Estamos na maior parte do tempo reproduzindo nossos conjuntos de técnicas
sem fazermos nenhuma crítica à respeito, simplesmente, continuamos
a naturalizar o modelo social vigente. Penso que isto assume uma importância
crucial para esclarecer o funcionamento de dispositivos que perpetuam
a estrutura da vida moderna e dos que confrontam essa mesma estrutura.
Conforme Canclini (1998), entre os artesões existe uma busca constante
por incorporar novas técnicas àquelas existentes. Novas
técnicas e temas fazem parte do repertório de produção
de um crescente número de artistas populares. Os meios de comunicação
de massa representam a potencialidade de organizar e mobilizar grupos
que até então viviam sem grande expressão no cenário
de debate e decisão. Os estudos de Mártin-Barbero (1997),
demostram que os meios de comunicação trouxeram novas possibilidades
de interação social e expressão da cultura popular.
Chega a sugerir que nos debrucemos mais sobre o conteúdo (processo)
da informação de massa, do que mesmo dos meios envolvidos.
Segundo Habermas (1968), os setores dominantes impõem seus interesses
não somente mediante a tecnologia, mas como tecnologia. Não
podemos ignorar a densidade tecnológica encontrada nas sociedades
ocidentais e cuja atividade vem modificando substancialmente a estrutura
social de países como a Coréia do Sul e o Japão,
acompanhados de perto pelos EUA e a China. São países com
um alto nível tecnológico e por isso são denominados
de sociedades tecnológicas[2]. Nas sociedades tecnológicas a intermediação da tecnologia
perpassa um número cada vez maior de processos sociais. A estrutura
topológica e morfológica apresenta mudanças significativas
em relação a estrutura tradicional, repercutindo no sistema
econômico, político, social e cultural. Neste sentido, apresenta
uma ruptura com o modelo moderno e que se reflete através do deslocamento
do centro de poder, para uma estrutura onde não há um centro,
mas centros que continuamente se alternam. Essa forma estrutural é
propiciada pelas condições concretas criadas pela aplicação
das novas tecnologias. A estrutura interconectada permite um fluxo maior
de informações e que repercutem nas decisões e na
execução das estratégias sociais. Acompanhando grupos juvenis recifenses na produção de softwares,
pude verificar que o processo de criação apresentado pelos
jovens segue uma lógica que se aproxima daquela encontrada entre
os programadores da iniciativa privada. As representações
dos jovens da periferia metropolitana do Recife estão impregnadas
pela subjetividade predominante. O mesmo foi verificado em relação
à aplicação tecnológica no terceiro setor.
O grande número de aplicativos existentes ou desenvolvidos não
se diferencia em nada daqueles encontrados no setor privado. Parece ser
uma tarefa difícil transpor o modo de fazer organização
e mobilização social na hora de construir as ferramentas
tecnológicas. Embora a sociedade civil, pelos menos uma boa parte
das organizações e movimentos sociais, tenha avançado
significantemente na sua prática social, isso, não parece
ocorrer com a produção tecnológica. Se olharmos as
produções existentes, veremos pouca diferença em
relação aos que são produzidos pelos demais setores
ligados ao modo de produção capitalista. Não quero
dizer com isso que a aplicação tecnológica por parte
da sociedade civil não exista. Não se trata disso. As novas
tecnologias foram responsáveis pelo surgimento da sociedade civil
global e com ações sociais simultâneas em vários
continentes. Um estágio mais avançado da democratização
da informação apenas foi possível com o uso da Internet.
É claro que outra revolução na disseminação
das informações foi possível com o aparecimento da
imprensa. A produção de conhecimentos se concentrava nas
mãos dos escolásticos e a proliferação de
livros, revistas e jornais representou mudanças significativas
na época. A produção tecnológica trouxe uma série de
benefícios na descentralização das estruturas de
poder. Elas permitiram uma relativa “visibilidade” aos grupos
minoritários e auxiliam a estruturação de novas estratégias
contra-hegemônicas. Contudo, se analisarmos o processo recente da
TV Digital, então concluiremos que a escolha do modelo a ser adotado
torna inviável a sua apropriação por parte de entidades
e movimentos sociais, assim como, pelas comunidades periféricas.
Trata-se de um processo sempre muito conflituoso. As novas tecnologias
são a força propulsora do desenvolvimento contemporâneo
e estão rodeadas pelos mais diferentes interesses dos setores sociais.
A (re)produção das técnicas significou e significa
a possibilidade de transformar a realidade de uma época. São
parte indissociáveis da vida humana, seja qual for o nível
tecnológico apresentado e seja qual for a sua aplicação.
No fundo são questões importantes para entendermos, a partir
de um determinado prisma, as razões que levam as sociedades constituírem
um determinado modo de existência e a intencionalidade existente
por detrás da construção e aplicação
dos seus modelos tecnológicos. A idéia de cultura nacional desempenhou um importante papel na
consolidação da modernidade. Essa expressão do sentimento
coletivo, disseminado, principalmente, pela literatura e o cinema, permitiu
que os valores vigentes de uma época fossem unificados em torno
de uma identidade integral ou como sujeitos participantes de uma comunidade
imaginada[3]. Essa concepção de identidade estabilizou o
mundo social em torno de formas coerentes, resolvidas e unificadas em
uma estrutura que não estava sujeita as mudanças fundamentais.
A cultura nacional não é apenas composta por instituições
culturais, mas também por símbolos e representações
que permitem formar uma certa estrutura de poder cultural (HALL:2001).
A ausência de um centro norteador de todas as coisas, cujo os valores
são universais, permite um retorno ao que Dussel (2002) chama por
sistema inter-regional. Neste modelo civilizacional, não existe
um centro referencial do sistema ético, mas, um modelo alimentado
por diferentes modos de vida. No mundo globalizado[4], as identidades
culturais se apresentam como transitórias e sem um ponto fixo,
possibilitando constituir novas fronteiras culturais: entre o popular
e o erudito (CANCLINI, 1998) ou entre o nacional e o global (BHABHA: 1998).
Novas fronteiras culturais implicam a redefinição dos sistemas
de representação sob o efeito das mudanças nas orientações
de suas coordenadas básicas: tempo e espaço. Todo o meio
de representação (escrita, pintura, fotografia etc.) traduz
seus objetos em dimensões espaciais e temporais (HALL: 2001). A
mediação tecnológica acelera as mutações
nas relações e representações sociais. O impacto
das técnicas contemporâneas sobre a constituição
da noção de tempo eespaço pode ser verificado na
mutabilidade das representações sociais e das identidades
culturais em um espaço curto de tempo. Como foi observado por Stuart
Hall (2001), as identidades são formadas e transformadas no interior
das representações, quanto mais velozmente se transformam,
mais repercutem sobre a (re)definição identitária. Novas identidades culturais surgem nas fronteiras entre o nacional e
o global ou entre o popular e o erudito. As nações modernas
são preeminentemente híbridas e não poderia ser diferentes
considerando a presença marcante da sua estrutura relacional. A
última fase da globalização, aceitando que este processo
vem sendo desenvolvido ao longo dos últimos séculos, tem
provocado a fragmentação dos códigos culturais com
ênfase no efêmero, no flutuante, no impermanente, mas desta
vez numa escala global. Stuart Hall (2001), argumenta que a exposição
das culturas nacionais às influências externas, torna difícil
conservar as identidades culturais intactas. Mas, isso não é
novo, pelo contrário, os processos de hibridação
assumem seu estado de potência com a consolidação
do estilo moderno, da vida urbana, da complexificação das
relações e instituições sociais. A fragmentação
das identidades nacionais é o centro de uma questão que
surge a partir das novas narrativas introduzidas pelos movimentos feministas
e seguidos pelos discursos dos movimentos sexuais, raciais, étnicos
etc. É a partir da periferia que novos sujeitos e agências
emergem no cenário de organização e mobilização
das forças contra-hegemônicas. A organização social em tribos contemporâneas permite
caminharem lado a lado com o desenvolvimento tecnológico ou mesmo
se apoiar nele. As novas tecnologias, e em particular as do ciberespaço,
instituem um território independente de demarcações
fixas, não físico, mas simbólico. Concebemos o ciberespaço
como uma forma crescente de agregações eletrônicas,
estruturadas através da conectividade generalizada. O ciberespaço
pode ser visto como um espaço liminar e que agrega processos e
pessoas que podem criativamente se libertar dos controles estruturais
ou podem ser consideradas perigosas do ponto de vista da manutenção
da lei e da ordem. Entre eles, podemos citar os cyberpunks, hackers etc.
e que continuamente são acusados de atentar contra as convenções
estabelecidas. Do ponto de vista sociológico, podemos entender
os cybergrupos como capazes de denunciar crescentes fenômenos que
mantêm uma relação dialógica com outros conteúdos
da vida social contemporânea. Trata-se de processos sociais ainda
pouco definidos e que demonstram a constituição de uma nova
cultura, e ao mesmo tempo que é particular, apresenta formas articuladas
com outros elementos presentes no cotidiano. Esta nova representação
cultural tem sido denominada de cibercultura e pode ser compreendida como
a mediação dos atuais meios eletrônicos com as manifestações
da cultura tradicional, vinculadas às novas formas de integração
social (sujeito, o outro e as novas tecnologias). Podemos nominar estas manifestações culturais contemporâneas
de ritualísticas e que continuamente constróem e interagem
com símbolos formados no liminar das fronteiras culturais. Estes
símbolos são constituídos no tempo não-assimétrico
entre a cultura global e local e se inserem na perspectiva diaspórica
da cultura. Segundo Hall (2003), essa perspectiva deve ser vista como
uma subversão aos modelos culturais tradicionais orientados para
a nação. Trata-se de fenômenos culturais que se contrapõe
ao pensamento social clássico e que toma para si uma multiplicidade
de referenciais para (re)definir as identidades culturais. Não
se trata mais daquela perspectiva de uma identidade integral, mas partilhadas
entre inúmeros elementos que dão forma as identidades culturais:
gênero, sexualidade, classe social, etnia etc. São o que
Hall (2003), denomina de paisagens culturais. O conceito de negociação parece ser adequado para compreender
como as relações sociais são estabelecidas no contexto
cibernético. Esta perspectiva compreende que as identidades culturais
estão continuamente negociando elementos diferentes, muitas vezes,
antagônicos e contraditórios, sendo uma forma encontrada
para lidar com os múltiplos e diferenciados referenciais. São
intervalos temporais e espaciais que resignificam o vivido, cria uma tensão
nas existências fronteiriças, no entre-lugar do ciberespaço
e da realidade empírica, no entre-tempo das mediações
simbólicas generalizadas e da realidade concreta, como é
definida por Karl Marx. São elas que trazem um novo enunciado aos
processos discursivos, introduzem novos sentidos ao que já está
colocado, e dessa forma, colocam em xeque as grandes narrativas e o discurso
universal. Os meios massivos acabam desempenhando um papel muitas vezes paradoxal.
Eles tanto podem comunicar enunciados que reproduzem a ordem vigente ou
serem responsáveis pela circulação de narrativas
que permitem uma certa “visibilidade” aos sujeitos e agências
sociais que se encontram a margem dos processos hegemônicos. Muitas
vezes, somos interpelados por afirmativas que colocam a cultura como inibidora
das pulsões. No lugar dos desejos persistem as convenções
organizadas por cada cultura, ou mesmo, por uma cultura universal. No
entanto, no caso da cibercultura, não podemos aferir com a mesma
certeza que os impulsos são suprimidos por uma cultura modeladora.
A cultura do sentimento, do presente vivido e das contravenções
indica algo um pouco diferente do que vem sendo preconizado pela modernidade.
Parece que a investigação dos atuais fenômenos relacionados
com o ciberespaço presidem de uma revisão na história
das mudanças sociais, da estruturação e reestruturação
dos processos que fazem da vida coletiva uma dinâmica que não
cessa. Em muitos momentos, deixamos de lado o processo histórico
que possibilitou a (re)definição da organização
da vida em sociedade, muitas vezes, repletas de rupturas e quase sempre
incompreensível a uma análise imediata. O fato é que as mediações tecnológicas exercem
uma importante influência na constituição da vida
social de cada época. As novas formas são tão revolucionárias
como as outras que aconteceram em outros períodos históricos.
Cada conjunto de técnicas acabou modificando substancialmente a
estrutura social vigente e trazendo novos elementos ao convício
social. O estranhamento da atualidade se deve à preponderância
da organização moderna, ou seja, a mesma que no seu estágio
embrionário perseguiu as bruxas, condenou os subversivos e tentou
a todo custo manter a ordem no convívio social. O retorno, pelo
menos é o que parece, de uma certa forma caótica, enigmática
e subversiva aos modelos de padronização comportamental,
traz incertezas difíceis de serem assimiladas dentro de uma estrutura
social que precisa manter um ordenamento contínuo. Compreender a mudanças que estão surgindo envolve olharmos
para os processos de fronteira, para a articulação da diferença,
que em tempos remotos pareciam ser incompatíveis e irreconciliáveis.
A diversidade foi incorporada na constituição territorial
desde os últimos momentos do processo de descolonização.
Convivem no mesmo território diferentes etnias, culturas, línguas,
sendo esta a base de sustentação das novas formas culturais,
como é o exemplo da cibercultura. O que definimos como um processo
essencialmente tecnológico, mantém uma estreita relação
com elementos que produzem a vida contemporânea e que podem ser
estudados através dos processos liminares, da negociação
das diferenças, da diáspora cultural e das paisagens culturais.
|