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| 404nOtF0und ANO 4, VOL 1, N. 44· dezembro/2004 ISSN 1676-2916 http://www.facom.ufba.br/ciberpesquisa/404nOtF0und Editor: André Lemos
O ensaio de Telma Valente tenta compreender o uso de efeitos especiais
no cinema desde a sua invenção até os dias de hoje.
Este texto faz parte do capítulo “Cinema da Contemporaneidade”
de sua tese de doutorado, em desenvolvimento, intitulada “Cinema
e magia: efeitos especiais – dos primórdios do cinema até
os dias de hoje”. O referido trabalho aborda três instâncias
temporais da evolução do cinema, a saber, o cinema dos
primórdios, o cinema de animação e o cinema da
contemporaneidade. Nestes três momentos da expressão fílmica
interessa-nos o denominador comum presente na realização
de seus filmes: os efeitos especiais. Pensar de que forma a utilização
de efeitos especiais promove uma articulação entre esses
três períodos da história do cinema constitui-se
na questão central deste estudo. Para a delimitação
do campo de trabalho estabelece-se um “corpus” de quatro
filmes representantes dos momentos citados acima. São eles: “Viagem
à Lua” (Georges Méliès, 1902); “Fantasia”
(Bem Sharpsteen, 1940); “Matrix” (The Wachowski Brothers,
1999); e “Fantasia” (James Algar/Gaetan Brizzi, 2000). Nessa
seleção encontram-se os filmes que incorporaram de forma
mais inovadora a utilização de efeitos especiais, de acordo
com as especificidades de cada gênero e com o contexto histórico-cultural
no qual estão contidos.
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Introduo
Este texto faz parte do captulo Cinema da Contemporaneidade da tese de doutorado, em desenvolvimento, intitulada Cinema e magia: efeitos especiais – dos primrdios do cinema at os dias de hoje. O referido trabalho aborda trs instncias temporais da evoluo do cinema, a saber, o cinema dos primrdios, o cinema de animao e o cinema da contemporaneidade. Nestes trs momentos da expresso flmica interessa-nos o denominador comum presente na realizao de seus filmes: os efeitos especiais. Pensar de que forma a utilizao de efeitos especiais promove uma articulao entre esses trs perodos da histria do cinema constitui-se na questo central deste estudo.
Para delimitarmos nosso campo de trabalho estabelecemos um corpus de quatro filmes representantes dos momentos citados acima. So eles:
- Viagem Lua (Georges Mlis, 1902);
- Fantasia (Bem Sharpsteen, 1940);
- Matrix (The Wachowski,
Brothers, 1999);
- Fantasia (James Algar/Gaetan
Brizzi, 2000)
Nessa seleo encontram-se os filmes que incorporaram de forma mais inovadora a utilizao de efeitos especiais, de acordo com as especificidades de cada gnero e com o contexto histrico-cultural no qual esto contidos.
Enquadram-se a, principalmente, as produes da indstria hollywoodiana, seja esta voltada para o cinema convencional ou de animao. Observa-se que foram confrontadas produes pertencentes ao mesmo gnero. o caso do primeiro e do terceiro filmes, ambos trabalhos de fico cientfica e do segundo e ltimo, filmes de animao.
A discusso em torno da utilizao dos termos trucagens e efeitos especiais, que est sendo proposta neste texto, fornece as informaes preliminares para o prato de resistncia desta pesquisa, que poder ser conferido numa outra oportunidade.
Luz, cmera, ao!
Apesar do estacionamento estar garantido, a pressa define o ritmo a ser seguido. O destino final no chega sem que tenhamos que vencer um mar de gente se avolumando sobre ns. um desfile descompassado de jovens e crianas, saias e gravatas, bolsas e carrinhos de beb. No caminho ainda d tempo de sentir o cheiro quente da pipoca amanteigada e de arregalar os olhos frente ao copo mdio de refrigerante.
Uma voz metlica anuncia, do outro lado do vidro, as atraes que esto disponveis. Ingressos na mo, resta-nos correr por rampas e escadas at encontrarmos a nossa sala. No somos os primeiros, nem os ltimos, mas nossos lugares favoritos ainda esto desocupados.
Logo em seguida as luzes se apagam. Melhor, assim podemos desfrutar mais das poltronas acolchoadas, j que estamos num espao que incorpora o conceito arquitetnico de conforto de ambientes. A sala rapidamente invadida por um som que s um isolamento acstico impecvel capaz de produzir. A viso de longo alcance, como tem que ser num sistema Kinoplex.
Bem diferente do modesto poro do Grand Caf, pomposamente chamado por sua extravagante decorao de Salon Indien onde – em meio s mesas de refeies e espetculos de vaudeville – improvisou-se um projetor em cima de uma escadinha para extasiar, com as imagens de um trem em movimento, a platia de 35 pessoas; ao invs das multides que lotam as salas dos cinemas dos shoppings de hoje.(GUIDI, 1991:93 citado por TOLEDO, 2000:9).
Aps trechos de histrias desconexas, finalmente nos entregamos a uma narrativa que se estender por, no mnimo, duas horas. Este momento deliberado de imerso comea nos olhos, que varrem a tela da direita para a esquerda, de cima para baixo, no necessariamente nessa ordem. Passa pelos ouvidos, que vibram com o aumento inesperado dos decibis. Estende-se pele, que se arrepia a cada ngulo apresentado. Concomitantemente a essas emoes, pulsa um corao abastecido de adrenalina.
No alto comando dessas operaes, no entanto, reina um crebro que filtra sentimentos, referncias e paradigmas. Ele brinca de esconde-esconde quando aceita/no aceita a magia vinda de imagens que aparecem/desaparecem da tela, encolhem/esticam, explodem/reconstituem-se num jogo de verdade/mentira. Ele participa tanto do show de pirotecnia, quanto da direo primorosa do enredo.
Na cadeira, acompanhamos atentos ao desenrolar da ao. E tome ao. O ritmo acelerado. As cenas so fragmentadas. A modstia foi deixada totalmente parte nas produes assistidas. s vezes buscamos apenas sensaes novas. Muitas vezes queremos mais contedo do que forma. Seja como for, acabamos sempre capturados pela impresso de realidade do cinema. Como bons espectadores que somos rimos, choramos, nos assustamos...Conservamos o frescor do fascnio pelas imagens em movimento. Tal qual o homem do sculo XIX, permanecemos fiis ao espetculo cinematogrfico.
Stand by
O cinema, nos dias de hoje, ao – mas tambm pode ser contemplao. Conserva momentos de pura tradio linear, porm permite produes caticas. digital, embora encontremos muito do velho analgico por a, seja por economia, ou por nostalgia. Admite um dogma, ou melhor, 95 dogmas. americano, bem como indiano, japons, brasileiro... internet, vdeo-game. multifacetado, portanto, difcil de ser definido em poucas linhas.
Caberia a ns, neste momento, apresent-lo nos seus vrios perfis. No entanto, a diversidade presente no cinema da contemporaneidade inibe nossa iniciativa. Ao mesmo tempo, o percurso investigativo escolhido por ns aponta para um cinema especfico: o cinema hollywoodiano.
Atualmente, este cinema confunde-se com a adoo de um procedimento
tcnico. Estamos nos referindo utilizao de efeitos especiais.
Exaustivamente empregados nas filmagens da indstria americana, eles so
personagens bastante conhecidos do pblico em geral. Essa prtica, que j virou
rotina nos estdios californianos, ganhou notoriedade h 30 anos.
O uso de suportes informticos na produo cinematogrfica iniciou-se nos anos 70 com o filme Star War (George Lucas, 1977) e Contatos Imediatos do 3 grau (Steven Spielberg, 1977); sem esquecer de 2001: uma odissia no espao (Stanley Kubrick, 1968) (COSTA, 1989:202). De l para c, seu uso tem se intensificado. Isto se deve a diversos fatores, entre eles:
A indstria cinematogrfica hollywoodiana tem optado por esse expediente, muito mais do que as produes euro-asiticas. A razo para isso parece evidente. J que o cinema norte-americano tem interesses fortemente comerciais, nada melhor do que lanar mo de recursos que vo facilitar a obteno do lucro desejado com as suas produes. Mas os aspectos mercadolgicos no resumem tudo o que h para dizer sobre os efeitos especiais.
Efeitos especiais versus trucagens
J estvamos acostumados com as histrias em quadrinhos, com a televiso, com o vdeo e at o computador parecia-nos mais familiar quando o velho cinema e os novos efeitos que foram acrescentados a ele entraram nessa histria. Hoje so chamados de efeitos especiais, mas nem sempre receberam essa denominao. Da mesma forma, esses so considerados estreantes nesse enredo, mas essa narrativa comeou h muito tempo atrs com um visionrio chamado Mlis e suas trucagens. Grande parte desse filme j foi visto no perodo anterior, que teve seu momento mais marcante quando aconteceu uma Viagem lua.
De l para c, outras mgicas foram realizadas. Novos mgicos entraram para o show. Uma pequena recente histria das imagens modificadas foi construda. No entanto, h que se dizer que efeitos especiais so muito mais do que pirotecnia hollywoodiana.
Logo de incio uma questo se coloca. Qual a denominao, afinal, que devemos empregar: trucagens ou efeitos especiais?
Antonio Costa (op.cit.:202) apresenta-nos o pensamento de alguns autores, que ora estabelecem uma distino entre os termos trucagens e efeitos especiais, ora nem sequer mencionam o problema. Logo percebemos que essa variao terminolgica configura-se como uma evoluo da linguagem do cinema.
Antes, porm, esse autor faz uma observao bastante relevante a respeito desta discusso:
Deve-se
destacar que caiu em desuso o antiquado termo trucagens, que evoca os tempos
de Mlis e as maravilhas fteis e surpreendentes oferecidas aos espectadores
das feiras, passando a ter maior sucesso o futurista efeitos especiais, mais
adequado para se referir alta tecnologia.
(COSTA,
op.cit.:202)
No se trata apenas de uma distino lexical. O termo trucagem, no passado, adquiriu, em alguns momentos, uma conotao negativa. Falamos no caso do ator Alan Ladd, que interpretou Shane em Os brutos tambm amam (1953). Era obrigado a representar sobre invisveis banquinhos para ocultar a sua baixa estatura. (COSTA, op. cit.: 204). Por esse e outros exemplos encontrados, parece-nos que o termo trucagem foi mais empregado para expressar situaes ilusrias, para enganar o pblico.
J o termo efeitos especiais definido por alguns glossrios como tcnicas, tecnolgicas ou no, que ajudam no realismo de imagens, que dificilmente se realizariam com o mesmo sucesso, se fossem feitas da maneira tradicional. Essa e outras definies observadas apontam para uma utilizao do termo em situaes em que se pretende falar a verdade para o pblico. No entanto, esse conceito de verossimilhana tem que ser revisto, pois estamos falando de um realismo de imagens que nos apresentam, por exemplo, pessoas voando, ou atravessando paredes.
Entre os autores citados, COSTA (op.cit.: 202) menciona rapidamente o glossrio cinematogrfico de Grazzini (GRAZZINI, 1982). Para este autor no est codificada uma distino entre trucagens e efeitos especiais, se bem que – acrescenta o autor – esses ltimos exijam um sistema mais complexo de fantasia e das inovaes tecnolgicas.
Autores como Farassino propem sutis distines:
Trucagens e efeitos especiais no so noes homlogas porque se colocam em dois nveis diversos da existncia do filme. A trucagem o que produz o efeito especial. A trucagem existe, mas no se v. O efeito especial, ao contrrio, como espetculo, visto e deve ser visto.
Se a trucagem no
pode fazer o espetculo, o efeito especial espetculo por excelncia e deixa
indecifrvel a relao com o que existe, com a realidade
(FARASSINO, 1980: 201 citado por COSTA,
op.cit., 202-203).
A diferenciao apresentada por Farassino interessa-nos para as argies que faremos posteriormente sobre a espetacularizao presente no cinema da contemporaneidade, bem como no cinema dos primrdios.
H autores como Brosnan (BROSNAN, 1976:9 citado por COSTA, op.cit.:203) que estabelecem uma diferenciao entre os efeitos especiais e os efeitos fotogrficos especiais. Os primeiros so propriamente efeitos fsicos e mecnicos e, acrescenta Brosnan, h casos em que o trabalho de um especialista de efeitos no tem nada a ver com as trucagens e a iluso, como quando explode realmente um edifcio ou manda-se um trem ponte abaixo (BROSNAN, 1976:9 citado por COSTA, op.cit.:203).
COSTA tenta elucidar esta questo apelando para as diferentes conotaes que os dois termos podem apresentar. J foi dito anteriormente como as trucagens, utilizadas no passado, redundaram numa soluo enganosa para o espectador e por isso adquiriram uma conotao negativa. Sobre os efeitos especiais ele complementa:
O termo efeitos especiais revelou-se mais adequado ao papel cada vez mais importante que as tcnicas de filmagem e de manipulao da imagem assumiram no cinema contemporneo, sobretudo depois que os investimentos em tecnologia comearam a consumir uma boa parte do oramento total de um filme e desde que as tradicionais tcnicas cinematogrficas foram integradas ou substitudas pelas eletrnicas.
(COSTA ,
op.cit.:204)
Mas Metz quem enriquece essa discusso quando, no apenas assume o termo trucagem, como apresenta uma classificao das trucagens. Acrescentamos a viso desse autor, pois acreditamos que a tipologia instituda por ele poder iluminar alguns pontos na nossa construo de uma identidade entre o cinema dos primrdios e o cinema da contemporaneidade. No campo da produo, Metz distingue os truques pr-flmicos das trucagens cinematogrficas.
Convencionando que a pr-flmico atribui-se o significado de tudo
o que colocado diante da cmera para que ela otome, Metz define como
pr-flmico aqueles truques que intervm antes do ato de filmar. Por exemplo: a
substituio do ator por um figurante ou por um manequim, ou o uso de
expedientes como alapes, engenhos para fazer um ator voar etc. (METZ,
1972:274-76 citado por COSTA, op.cit.:204). Alguns procedimentos de Mlis
estariam encaixados nesta categoria, se adotssemos essa classificao. V-se
que essa categoria corresponde, grosso modo, ao que Brosnan define como efeitos
fsicos ou mecnicos. (COSTA, op.cit.:204).
Metz prope uma outra classificao, dessa vez tendo em vista a
maneira pela qual as trucagens so percebidas pelo espectador (regimes
perceptivos da trucagem). Ele define trs tipos: trucagens imperceptveis,
trucagens invisveis, mas perceptveis, trucagens visveis. (COSTA op.cit.:205)
So imperceptveis as trucagens que funcionam somente com a condio de que o espectador no se d conta de nada. Por exemplo: o uso de um figurante para substituir um ator. (METZ,1972:278 citado por COSTA, op.cit.:205) So invisveis, mas perceptveis as trucagens a respeito das quais o espectador no sabe onde esto e em que ponto do texto flmico intervenham, mas percebe a sua existncia. o caso do homem invisvel. (METZ, 1972:278 citado por COSTA op.cit.:206) J as trucagens visveis so aquelas que so no apenas claramente identificadas como tais (como o caso do flou, do ritmo acelerado, do ritmo lento, da sobre-impresso, da fuso), mas apresentadas e percebidas como manipulaes explcitas da imagem. (idem)
As consideraes de Metz citadas acima tocam em pontos delicados da teoria cinematogrfica. Estamos nos referindo questo da reproduo, ou seja, do cinema como meio produtor de duplos - portanto – de cpia da realidade, que colocada em xeque pela possibilidade da simulao. Falamos ainda da evoluo da linguagem cinematogrfica impulsionada pela evoluo tcnica proporcionada pelos efeitos especiais – como o caso de algumas trucagens visveis que se tornaram efetiva conduta gramatical e sinttica (como por exemplo, o flou ou imagem desfocada, que surgiu como truque, mas que j est incorporada linguagem cinematogrfica). Voltaremos a esses aspectos posteriormente.
COSTA (op.cit.) faz uma observao lexical, baseado nos estudiosos dos gneros literrios ou cinematogrficos (como PRDAL, 1970 e TODOROV, 1970), que d margem a um outro tipo de classificao dos efeitos especiais. Ele sugere que o termo efeitos especiais possui um correspondente antittico: efeitos ordinrios. Segundo o autor, a representao (simulao) de certos eventos pode ocorrer mediante um procedimento ordinrio ou extraordinrio em relao natureza do evento e modalidade de visualizao. (op.cit.:207)
Podemos chamar de
ordinrios os eventos que entram no mbito das leis naturais conhecidas e das
possibilidades tcnico-cientficas que so patrimnio comum da humanidade;
extraordinrios os que transgridem uma e outras ou ambas.
Em geral, os
efeitos especiais foram usados exatamente para tornar representveis eventos
deste tipo. Contudo ser necessrio destacar que os limites entre ordinrio e
extraordinrio foram sendo modificados em conseqncia do progresso
tcnico-cientfico (op.cit.207-208)
Os efeitos
especiais podem simular eventos ordinrios e extraordinrios apresentados por
sua vez atravs da simulao de modalidades de viso ordinrias e
extraordinrias, cujos limites tambm so mveis e variam com a variao da
competncia visual do espectador. Um critrio para definir o extraordinrio e o
ordinrio nesse campo pode ser o da compatibilidade com o cdigo de
expectativas do espectador, ou seja, com aqueles que so os seus hbitos
perceptivos e que podem coincidir com as convenes de representao realista,
mas tambm com aqueles que se estabilizaram nos gneros no realistas
( op.cit.:208)
Por fim, COSTA menciona um ensaio de Todorov sobre a literatura fantstica (TODOROV, 1970). Segundo este autor, a essncia do fantstico consiste na hesitao do leitor (que dura todo o tempo da leitura) entre uma explicao natural e uma explicao sobrenatural dos eventos extraordinrios de que o texto o faz participar (TODOROV, 1970 citado por COSTA, op.cit.:211).
A partir da COSTA postula que:
A teoria da
hesitao de Todorov poderia ser alargada ao cinema fantstico, mas nos
oferece tambm a pista para identificar na hesitao a propriedade
fundamental dos efeitos especiais. Frente a esses o prazer do espectador se
nutre da incerteza de atribuir o fascnio ao extraordinrio universo em que
mergulhado ou ao extraordinrio mecanismo que o simula.
(op.cit.:211-212)
Como podemos observar, a questo terminolgica que lanamos anteriormente possui diversas opinies. Algumas so divergentes, mas acreditamos que elas so, no seu todo, complementares. Nessas tentativas de lanar luzes sobre essa discusso, muitos conceitos de efeitos especiais foram apresentados. Acrescentaremos, ainda, a viso de mais uma pesquisadora.
Cristiane Freitas (FAMECOS, 2002:26-33) afirma que:
O efeito especial , portanto, o meio pelo qual o impossvel e o mgico se tornam visveis, participando regularmente do processo de formao das identidades flmicas
Reapresentamos o pensamento dessa autora (j mencionado quando abordamos o cinema dos primrdios) por julg-lo relevante para esse esforo de constituio de uma conceituao para o termo efeitos especiais, bem como para a soluo desse debate.
A posio da mdia a respeito desse tema tambm foi levada em considerao por ns. Segundo Marco Aurlio Sanchez:
Os efeitos especiais hoje tm esses dois papis no cinema. O de tornar o irreal possvel e o de tornar o real mais real ainda.
(MUNDO MIX
MAGAZINE, 2000)
Finalizamos essa reviso bibliogrfica com a definio encontrada no dicionrio Sesc. Este diz que o verbete efeitos especiais:
Consistem no
emprego de truques ardis ou estratagemas fotogrficos, cinematogrficos ou
videogrficos que tornem naturais e consistentes a iluso ou a fantasia
contida em uma cena a ser registrada, na impossibilidade de realiz-la
diretamente e com maior veracidade.
(CUNHA, Newton. Dicionrio Sesc: a linguagem da cultura. SP, Perspectiva, Sesc So Paulo, 2003 In: Videotexto.info, Editora Videotexto. Ano I)
Resta-nos enfrentar esse problema, encerrando-o com a nossa proposio a respeito dessa questo, bem como cabe nesse momento a nossa definio para o termo efeitos especiais. Sendo assim, esclarecemos que adotaremos o termo efeitos especiais tanto para o cinema dos primrdios, representado pela obra de Georges Mlis, quanto para o cinema da contemporaneidade – presente no trabalho dos irmosWachowski.
Nossa escolha levou em conta dois fatores principais. Primeiramente, consideramos o desuso do termo trucagens. Nossa pesquisa pretende contribuir positivamente para a evoluo do cinema com um novo olhar sobre o uso dos efeitos especiais. Soaria anacrnica uma postura que adotasse o termo trucagens para as produes realizadas nos dias de hoje.
Por outro lado, se empregssemos o termo trucagens estritamente para o cinema dos primrdios, correramos o risco de cristalizar um preconceito, j que a utilizao desse termo no passado, na maioria das vezes, teve um carter pejorativo. Dessa forma, no faramos jus ao talento de Georges Mlis. Discordamos dos autores que consideram ingnuos e primitivos os procedimentos desse cineasta. justamente a falta de tecnologia de ponta o que torna a delicada tarefa de montagem realizada por Mlis (apresentada em detalhes anteriormente) um exemplo da mais sofisticada das artes. Suas mltiplas sobre-impresses para aparies, desaparies, transformaes de estado fsico etc feitas manualmente e sempre na iminncia da pelcula se romper constituem-se em exemplos de arrojo tecnolgico.
Da referir-se aos seus truques - cenogrficos, fotogrficos, ou puramente cinematogrficos – como efeitos especiais - dar um tratamento contemporneo ao cinema dos primrdios. tambm o reconhecimento de uma ponta de aproximao entre o cinema da contemporaneidade e o cinema dos primrdios.
Outra razo para nossa opo pelo termo efeitos especiais a implicao que esta denominao possui com o carter de espetculo presente no cinema. Por efeitos especiais entendemos, normalmente, um show de imagens e sons. Todos os esforos (e recursos) so empregados no sentido de maravilhar o espectador de cinema.
Dessa forma, descobrimos no cinema da contemporaneidade mais um trao em comum com o cinema dos primrdios, j que as produes de Mlis primavam por ser o espetculo por excelncia. A versatilidade, a eficcia, e os resultados obtidos com a utilizao de suportes informticos configuram-se como os truques de mgica do sculo XX.
Uma vez estabelecida a utilizao do termo efeitos especiais, tanto para os procedimentos e tcnicas de simulao de imagem do cinema dos primrdios, quanto para os do cinema da contemporaneidade apresentaremos nossa definio para essa expresso. Alertamos, no entanto, para o fato de nosso conceito atender aos propsitos dessa pesquisa, ou seja, essa conceituao mais um espao de defesa da relao de semelhana que existe entre o cinema dos primrdios e o cinema da contemporaneidade percebida pelo uso de efeitos especiais. Alm disso, queremos destacar que consultamos, mas no adotamos os conceitos apresentados pelos autores citados por COSTA (op.cit.), ou mesmo os mencionados por este autor, a despeito de concordamos com muitas das idias anunciadas.
Isto posto, declaramos que consideramos os efeitos especiais o nvel mais sensvel de hibridizao das mdias. Com isso, pretendemos resgatar, no cinema de Mlis, precursor de uma miscigenao das mdias – uma prtica que se tornaria o fundamento do cinema da contemporaneidade. Demonstraremos como algumas das inovaes da realizao cinematogrfica contempornea tm razes no cinema dito primitivo de Georges Mlis.
O desenvolvimento desse aspecto, juntamente com outras implicaes que aparecem de forma indissocivel, constitue-se no prato de resistncia desse trabalho. Numa outra oportunidade daremos seguimento s idias ora apresentadas.