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404nOtF0und ANO 3, VOL 1, N. 28· maio/2003 ISSN 1676-2916 http://www.facom.ufba.br/ciberpesquisa/404nOtF0und Editor: André Lemos Um Olhar Pedagógico sobre o Trailer Digital Por POLLYANA NOTARGIACOMO MUSTARO <pcsn@uol.com.br> e VERA QUEIROZ <vcqm@uol.com.br> Resumo: Abstract:
O avanço tecnológico abre novos horizontes para a exposição e divulgação das artes. Cada vez mais vemos escritores, pintores, músicos, artistas de modo geral, utilizarem a Internet para publicarem e exporem suas obras ou suas composições musicais. Assim, também o cinema faz uso da mídia eletrônica como forma de conquistar novos fãs, conse-guir patrocinadores, vender novos filmes e lançar seus produtos comerciais na área de lazer e entretenimento. Esta possibilidade de apresentação de filmes pela Internet, se por um lado é positiva, por outro trouxe preocupação para a indústria cinematográfica quanto aos direitos autorais que regem este universo digital e as formas legais de coibir a prática de pirataria. Segundo notícia veiculada em PC Master em 17 de agosto de 2001 e disponibili-zada na Web pelo Yahoo! Brasil Notícias – Tecnologia1, com o título “Estúdios se Unem para Oferecer Filmes na Web”, vê-se nitidamente esta preocupação dos estúdios cinemato-gráficos. De acordo com a matéria:
Portanto, o usuário da Internet deve conhecer e estar alerta para as facilidades e restrições impostas pelos mais diversos autores que dispõem suas obras neste meio eletro-nico. Um dos recursos utilizados pelo cinema, por seu grande potencial publicitário, é o de exibição de trailers. O surgimento da WWW (World Wide Web) tornou mais fácil para os fãs do cinema assistirem um trailer de uma produção que já está em cartaz, ou, até mes-mo daquela que está sendo divulgada com antecedência pela indústria cinematográfica com o propósito de ser um chamariz para seu grande lançamento2. Pereira (2002) coloca que “Praticamente todos os estúdios de Hollywood estão privilegiando a rede mundial de computadores para o lançamento de trailers e diversos outros conteúdos afins com o objetivo de atrair mais público às salas de cinema e gerar novos negócios”. Esta estratégia, segundo Robson Pereira, praticamente duplicou a visitação e cresceram em 75%, acessos, à Lucasfilm ao Portal SonyPictures (sendo 50% deste índice diretamente ligado ao Homem Aranha e Resident Evil) respectivamente. Outra técnica usada atualmente pelo cinema é a de fazer chamadas para o próprio trailer do filme antes de liberá-lo. Esta é uma forma de criar maior impacto e expectativa para a produção cinematográfica3. Antigamente as exibições de trailers ocorriam somente nas salas de cinema. Para ter acesso aos próximos lançamentos da indústria cinematográfica era necessário assistir a um filme que estivesse em cartaz ou acompanhar as críticas e comentários através da TV ou do Jornal. Com o instantaneismo da Internet, o trailer passou a estar disponível “a um clique do mouse”. O acesso a trailers digitais na Web também atende a outras funções e necessidades. Através do registro de visitação às páginas onde estão disponibilizados os trailers, tornou-se possível, para a indústria cinematográfica, avaliar o potencial mercadológico de um filme a ser lançado. Segundo um press release divulgado pela Warner Bros4, TheMatrix.com recebeu mais de 20 milhões de visitantes desde que o trailer Matrix Reloaded foi liberado e ainda, que nas primeiras 72 horas após sua liberação na Web no dia 15 de maio, o trailer foi copiado para as máquinas dos usuários mais de 2 milhões de vezes, batendo os recordes de Harry Potter e do Senhor dos Anéis – A sociedade do Anel. Estes dados são importantes, pois permitem que se tenha uma prévia das expectativas que os fãs apresentam em relação aos filmes a serem lançados. O merchandizing também se faz presente através dos trailers quando da execução de pequenos trechos da trilha sonora de um filme em cartaz ou a ser lançado. Isto leva, por vezes, o consumidor a compra de CDs de músicas pertencentes à trilha sonora sem que necessariamente vá assistir ao filme. Inclusive, a indústria cinematográfica começou a investir diretamente nesta área como mostra o website “Spider-man Official Merchandise”5, que apresenta o seguinte slogan: “A loja virtual oficial do Homem Aranha encontrou um novo lar na Sony Style e lança NOVO produto que inclue máscara temática, posters, brinquedos e a exclusiva roupa do elenco - COMPRE AGORA!!!” 6. Nesta página web é possível, por exemplo, adquirir a trilha sonora do filme, livros sobre o Homem Aranha e enviar cartões postais do personagem para um amigo. Um elemento significativo em relação aos trailers digitais disponibilizados na Web e que não pode deixar de ser citado é que, por serem informações codificadas digitalmente, “podem ser transmitidas e copiadas quase indefinidamente sem perda de informação, já que a mensagem original pode ser quase sempre reconstituída integralmente apesar das degradações causadas pela transmissão (telefônica, hertziana) ou cópia” (LÉVY, 1999, p. 51). Além disso, a disponibilização de trailers digitais na Web tem revolucionado o mercado de entretenimento. A possibilidade de assistir um pequeno “preview” na Internet, uma espécie de “viodeclip” com cenas que instigam o espectador a ir ao cinema, permite um contato direto com a própria produção e bastidores da filmagem. Através da navegação em websites que fazem o pré-lançamento, tendo em vista a previsão do retorno do investimento, é possível ver o trailer, ler o script do filme, ouvir trechos da trilha sonora, fazer o download de wallpapers, screensavers e comprar produtos como CDs (trilha sonora), camisetas e tantos outros objetos. Estas novas configurações sociais, voltadas para o lazer e entretenimento, requi-sitam novos profissionais que tenham um determinado domínio técnico / teórico e habi-lidades para analisar, compreender e criticar a adequação dos materiais que estão sendo disponibilizados na Web, bem como imaginar e refletir sobre as possíveis tendências deste mercado. Segundo Belloni (2001) a relação entre educação e tecnologia implica em “que o uso de uma ‘tecnologia’ (no sentido de um artefato técnico), em situação de ensino e aprendizagem, deve estar acompanhado de uma reflexão sobre a ‘tecnologia’ (no sentido do conhecimento embutido no artefato e em seu contexto de produção e utilização)” (p. 53). Tomando como base essa visão de Belloni e as possibilidades geradas pela tecno-logia, tanto como instrumento de ampliação do espectro comunicacional e interativo quanto facilitador do acesso às informações presentes na Web, acreditamos ser pertinente a necessidade de criar "espaços virtuais" para a discussão e reflexão conjunta e orientada das questões relacionadas aos trailers digitais. A configuração desses espaços virtuais requer um projeto estruturado que trabalhe as características e analise as linguagens utilizadas nos trailers cinematográficos para a divulgação de filmes, envolvendo elementos interdisci-plinares e hipermidiáticos. O estudo desses elementos pode ser feito em um curso de extensão, oferecido a distância, on-line, com carga horária de 30 horas (distribuídas em 5 semanas) a alunos graduados interessados em analisar e refletir criteriosamente sobre trailers cinematográficos disponibilizados neste novo substrato eletrônico. Para participar do curso, o candidato precisa atender a alguns requisitos básicos: ter acesso à Internet e fluência tecnológica – que lhe permita fazer pesquisa na Web e manipular ferramentas de interação (síncronas, assíncronas e de compartilhamento) –, ter tempo disponível para participar de fóruns de discussão e (se necessário) de chats e conhecimento intermediário da língua inglesa para leituras de textos. Um curso nestes moldes seria orientado por uma dupla de professores, oriundos das áreas de Língua Estrangeira e de Comunicação, que ofereceriam não só suporte lingüístico e teórico, mas também atividades on-line que permitissem aos alunos interagir (com os colegas, com o material, com o professor e com a própria interface do programa utilizado), elaborar comentários, levantar questões e construir coletivamente conhecimentos. Esta proposta de criação de um ambiente colaborativo e participativo digital está pautado nas Novas Tecnologias de Comunicação e Informação (NTCIs),“que oferecem possibilidades inéditas de interação mediatizada (professor/aluno; estudante/estudante) e de interativi-dade com materiais de boa qualidade e grande variedade. As técnicas de interação mediatizada criadas pelas redes telemáticas (e-mail, listas de discussão, webs, sites, etc.) [...] permitem combinar a flexibilidade da interação humana (com relação à fixidez dos programas informáticos por mais interativos que sejam) com a independência no tempo e no espaço, sem por isso perder velocidade” (BELLONI, 2001, p.59). Para trabalhar com a análise crítica e reflexiva de trailers digitais em um curso formatado para veiculação on-line, é necessário estabelecer uma estrutura temática modular que oriente as leituras e navegações dos alunos e atente para: as características e funções dos trailers disponibilizados on-line, as linguagens utilizadas nesses trailers (vídeo, som, texto, etc.), as questões relacionadas aos direitos autorais e as formas e os critérios de análise destes pequenos excertos de filmes. Com relação aos módulos, eles devem conter, além de textos escritos pelos próprios docentes do curso, instruções sobre como trabalhar com as informações, textos selecionados e disponibilizados na Web (através de um redirecionamento automático para o website original de hospedagem da página em questão) e exercícios complementares aos estudos. A utilização de ferramentas de comunicação assíncrona (fórum) e síncrona (chat) completam este quadro, pois permitem que se estabeleça uma discussão sobre as temáticas modulares e interações entre os participantes do curso (bem como com o professor). A proposta de um curso on-line desse tipo também deve estar pautada em uma filosofia de acompanhamento e avaliação do processo e do crescimento intelectual dos alunos, pois “usar todas as novas tecnologias na educação e na formação sem mudar em nada os mecanismos de validação das aprendizagens seria o equivalente a inchar os músculos da instituição escolar bloqueando, ao mesmo tempo, o desenvolvimento de seus sentidos e de seu cérebro” (LÉVY, 1999, p. 175). Em cursos on-line a avaliação pode ser feita a partir da participação dos alunos nos debates, da interação com os colegas e profes-sores e, no caso de trailers digitais, da confecção de um projeto final de análise crítica e reflexiva de um trailer escolhido pelos próprios alunos e elaborado em duplas ou em peque-nos grupos. Estes trabalhos (e o feedback relacionado a eles) também seriam disponibi-lizados on-line, para que todos pudessem debater a respeito e ver as soluções encontradas pelos colegas para a aplicação dos conhecimentos adquiridos durante o período do curso. Outra ação complementar, para que este embrião de comunidade de discussão e análise de trailers digitais continuasse a desenvolver seus estudos e discussões de forma autônoma, seria a criação de uma lista de discussão em ambiente público e gratuito. Isto garantiria a liberdade para a manutenção dos debates e contato pessoal entre os integrantes da turma. Para a viabilização do curso on-line é necessária uma divulgação prévia, através de vários veículos de comunicação e através do Website da própria Instituição responsável pelo curso, com informações pertinentes (ementa, prazos de inscrição, pré-requisitos, for-mas de inscrição e preço), e um formulário para a inscrição. Após o processo de inscrição e formação da turma é possível iniciar as atividades elaboradas para esse fim. Outra questão importante no que tange a facilitar o processo de viabilização do curso está relacionada à implementação deste através de uma plataforma de gerenciamento e administração de cursos on-line, tal como, WebCT, Blackboard, entre outras. Estas plataformas oferecerem uma interface amigável, personalizável e ferramentas (admi-nistrativas, de mediação e colaboração, de manutenção e armazenamento de conteúdos e de gerenciamento dos alunos, incluindo dados estatísticos e relatórios). De forma comple-mentar, esta estrutura também necessita de Suporte Técnico que ajude tanto os professores quanto aos alunos a solucionar problemas desta ordem. Finalmente, com o intuito de implementar um curso on-line de qualidade, é impor-tante ter uma equipe de desenvolvimento e manutenção formada por: • Professores – Um Professor de Língua Inglesa e um Professor da Área de Comu-nicação ou Pedagogo com experiência ou cursos e pesquisas na área de comunicação e mídia digital. Ambos deverão ter, ainda, conhecimentos de linguagens para a produção de arquivos para visualização através de browsers (navegadores), hipertexto e da integração destes elementos com o sistema escolhido para disponibilização do curso. • Suporte Técnico – O suporte técnico poderá ficar a cargo de um dos integrantes da equipe de analistas da instituição ou universidade, contanto que este também tenha conheci-mentos do ambiente virtual e das ferramentas implementadas pelos professores para o curso. • Suporte Administrativo – Este ficará a cargo da Secretaria Geral da instituição ou Universidade responsável pelo oferecimento e pela certificação do curso. Este formato de curso, oferecido on-line, apresenta propostas educacionais mais condizentes com as exigências da sociedade tecnológica (sociedade da informação), onde, através de práticas interativas e comunicacionais, o aluno tem a possibilidade de aprender a se manifestar perante os produtos culturais apresentados digitalmente. Sendo esta uma área totalmente nova requer estudos e análises mais aprofundados que permitam avançar na discussão acadêmica para a instituição de uma nova educação que venha a contribuir para a formação de indivíduos críticos e reflexivos.
Referências Bibliográficas e Telemáticas: |